Numa noite, deito-me suavemente na minha cama e aos poucos adormeço, acordo pensando no sonho que tive. Sonhei que alcancei o céu com o coração, nesse momento começou a chover, nesse momento descobri que são poucas as pessoas que conseguem alcançar o céu com o coração.
Quando a chuva caiu, abandonei os sapatos e comecei a correr descalço no meio da chuva no chão molhado.
Sem me importar com o preço daqueles sapatos que deixei para trás, pois percebi que as minhas pegadas naquele chão molhado fariam bem para a minha alma.
Dancei ao som das gotas da chuva, era tudo o que queria naquela noite, então quando senti o chão nos meus pés fiz questão de permanecer descalço, a sensação que eu tinha era que logo a chuva iria embora.
Brincamos tanto que a chuva insistiu em permanecer molhando meu corpo. Aquela noite foi a noite mais feliz da minha vida.
O nosso som estava em sintonia, o som da chuva e o meu. Respiramos ao mesmo tempo. Desaguamos com a mesma intensidade.
Estava frio. Nublado. A chuva estava se misturando comigo. Ela era divina, eu era pó. Ela permitiu-me desaguar ao mesmo tempo que ela.
Naquela noite, enquanto chovia eu dormia, alcancei o céu com o coração. Sem saber que aquela chuva lavaria a minha alma.
Eraldo Silva.
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Você sabia que do outro lado da rua tem alguém passando fome? Sabe qual é o preço da comida dessa pessoa, é dez vezes menor do que o valor dos perfumes que você passa em suas roupas para o vento levar o cheiro embora.
Você sabia que hoje algumas crianças morreram de fome? Sabe quanto cobraram para alimentá-las? Não cobraram nada! Por esse valor elas faleceram.
O vizinho viu o filho do vizinho passando mal, mas ele simplesmente fechou sua porta e ao entrar em sua casa disse aos seus filhos: Vocês viram o que a droga faz com as pessoas.
Lamento porque hoje não temos mais amigos conversando nos bares aos domingos! Eles vão falar o quê, e de quem? Não temos mais Pelé, não temos mais Garrincha, Maradona, Zico.
Agora nem o Silvio, são tantos e tantos nomes que deixaram seu nome escrito na história por aí. Hoje os bares fecham às nove horas, já aos domingos fecham às oito.
Amanhã as fábricas abrem bem cedo, ninguém quer ir trabalhar desse jeito, além de tudo elas ficam longe, sabemos que o metrô vai estar lotado.
Não temos mais as bancas de jogos nas calçadas, o jogo do bicho já não é mais tão visitado como em outros tempos, o café da tia que deveria ser do mesmo dia é requentado.
Os bons costumes não são mais vistos nas esquinas, não temos mais o velho sentado nas calçadas contando histórias, é que ele mesmo esqueceu sua própria história.
Ele volta para casa triste por não ter ninguém para recordar seu passado, chega em casa triste, tira as botas, mas não tira uma nota do bolso.
O pagamento é no dia cinco, hoje ainda é vinte e cinco, quando receber já estará tudo reservado para o aluguel. Estou pegando o trem das nove, é que a estação fecha às dez e meia.
Eraldo silva.
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Ontem a noite quando o trem partiu não foi só ele que foi embora, você também partiu, levando junto meu coração, naquela noite chorei copiosamente pela tua partida, parece que meu coração dívidia meu peito em dois pedaços.
Minhas lágrimas não foram envão, fiquei muito triste em saber que amanhã o trem que te levou irá voltar, dói saber que ele irá cruzar a mesma estação que te levou embora, dói saber que ele vem mais você não vai voltar nele.
Mas quem sabe amanhã as minhas lágrimas voltará cair sentido sua falta, talvez quando o trem voltar eu já esteja ido embora, até por que não terá graça ficar esperando o trem voltar sabendo que dentro dele você não vai esta.
Juro que vai ser dolorido ver o trem chegando sabendo que foi ele que te levou embora.
Vai ser triste amanhã ver o trem partindo sabendo que foi nele que te olhei pela última vez.
Eraldo silva.
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Na tribo Tupã, existe uma lenda sobre um pássaro negro que canta apenas uma vez por ano. No entanto, sempre que ele canta, assusta as pessoas da aldeia. Por ser um pássaro noturno, ele só canta durante a noite e passa o dia se camuflando. Quando ele canta, todos na aldeia ficam arrepiados e temem pela própria vida. Por isso, os índios da tribo Tupã não gostam de ouvir o canto desse pássaro. Sempre que o pássaro canta, eles sabem que a aldeia será atacada por uma força maligna que acompanha o canto do pássaro. Esse ataque costuma durar cerca de duas horas, aterrorizando a aldeia. Durante esse evento, ninguém se atreve a sair às ruas e ninguém diz uma palavra. A aldeia fica em completo silêncio. O líder idoso já sabe que no dia seguinte receberá uma má notícia, logo cedo, após o canto do pássaro, um jovem índio que ouviu o que o líder disse sobre esperar pela notícia ruim chega. Destemido o jovem índio decide sair em busca do pássaro desde aquele dia o jovem índio desapareceu é nunca mais foi visto, apesar de todos ouvirem sua voz, seus passos, mas ninguém consegue vê-lo pessoalmente. O pássaro foi embora e só voltará àquela aldeia no próximo verão, daqui a um ano. Todos acreditam que quando o pássaro cantar novamente naquela aldeia o feitiço será quebrado, e o jovem índio aparecerá, e todos poderão vê-lo e abraçá-lo. No entanto, o líder indígena continua triste por nunca ter conseguido desvendar o segredo do canto desse pássaro. Parece que a cada ano ele está vivendo uma tragédia que já foi anunciada. Agora, o índio idoso teme pela morte do pássaro, pois se o pássaro morrer, o jovem índio nunca mais será visto.
Eraldo Silva.
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O homem que semeava flores em seu caminho para que as borboletas seguissem seus passos criava pássaros livres. Ele não se preocupava com o que estava criando, mas sim com a liberdade deles.
Eraldo Silva.
Num bar, refletindo sobre a vida, aquele que estava bêbado disse as seguintes frases: os homens que amavam suas virtudes, sua sinceridade, que apreciavam as coisas simples da vida, que amavam o mundo ao seu redor, o vento suave, a brisa fria, a sombra da luz, perseguir seus sonhos, foram considerados loucos. Os homens que pararam de sonhar por não acreditar que os sonhos são realizáveis também foram considerados loucos.
Eraldo Silva.
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A vida às vezes é como um pote de sorvete, quando começamos a comer, pensamos que não vamos conseguir comer todo o sorvete. No entanto, a partir do meio para baixo, o sorvete começa a derreter tão rapidamente que, quando percebemos, já estamos apenas bebendo o líquido. Não há mais sorvete no copo. Nesse momento, percebemos que a vida não passa de um copo de sorvete. No começo, tudo é gostoso, mas ao longo dos anos, nós vamos amolecendo como o sorvete. Será o momento de esperar o tempo passar, aproveitando cada segundo que nos resta, como se fosse aquele último líquido no fundo do copo de sorvete.
Eraldo Silva.
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Você não sabe o que os outros passam, você não sabe o que irá acontecer um segundo à sua frente. O choro na casa do seu vizinho já não importa, você fecha a porta, quando não fecha a cara, o filho de fulano não é uma boa companhia para você.
Você esqueceu que o vizinho mora ao lado, esqueceu que o filho de fulano tem pai, você não sabe o que fulano fez tentando educá-lo.
Discordo quando dizemos que as más companhias influenciam, então diga-me o que fazem as boas companhias.
Acredito que a curiosidade influencia mais do que as más companhias, o problema é que hoje a dor dos outros não nos importa, nem as lágrimas do próximo nos comovem.
E é por isso que padecemos e estamos pagando caro.
Enquanto a sociedade viver cheia de egoísmo, com pensamentos mesquinhos, enquanto vivemos com o cérebro menor do que uma semente de mostarda, a humanidade continuará padecendo e sofrendo as consequências da nossa própria ignorância.
Um grito de socorro é solto em nossa direção todos os dias, estamos tão preocupados com nossas obrigações que não conseguimos ouvir, nem ver.
Hoje estamos tão focados em nossas obrigações, tentando ser o melhor que não conseguimos ouvir nem o eco do nosso próprio grito.
Pedimos socorro, pois não sabemos socorrer nem nossas próprias necessidades.
Eraldo Silva.
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Procuro por você, mas não te encontro, nos cantos dos pássaros, há um vazio dentro de mim, tento te encontrar em um simples aperto de mãos. E continuo te procurando em tudo o que vejo.
Vejo muitas pessoas, mas nenhuma delas tem o seu jeito.
Saio da rua com a cabeça baixa, com os pés no chão, procurando me conectar com a minha forma de sentir, vejo as nuvens passando e observo um oceano de desilusão à minha frente, mas você continua ausente.
Procuro te encontrar nas madrugadas vazias, mas é impossível elas serem mais vazias do que o meu quarto. Olho no espelho e vejo aquela foto que tiramos juntos, são apenas lembranças do passado.
Procuro por você em cada abraço, mas ao deixar de abraçar, sinto que não são os seus braços, aqueles lábios não são os seus, e o que resta é sentir o vento no corpo e acreditar que você ainda é o espaço vazio que está vivendo em mim.
Eraldo silva.
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Um louco disse a um sábio que ele sabia ser louco por ser sábio.
O sábio por sua vez disse ao louco que ele era um louco por que era sábio.
Enquanto um surdo estava ouvindo em silêncio, o que os dois estavam conversando.
Em seguida, um cego passou olhando a conversa do louco com o sabio, ainda viu um aleijado passar correndo porque não poderia chegar atrasado na estação.
A verdade é que ninguém estava errado nesta história.
Cada um tinha seu próprio ponto de vista.
Quando eles perceberam que a limitação não estava no corpo, é sim na mente.
Temos que aprender a ser como um sábio, discutir como um louco, ver como um cego, ouvir como um surdo.
E se um dia precisamos correr, que seja igual ao aleijado.
Sempre tentando alcançar o ponto de chegada.
Eraldo silva.
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