Sempre tive a sensação de não pertencer a nenhum lugar em que eu cravava meus pés. Dar nomes a esse sentimento chega a ser algo fora de cogitação, quando no fundo, sei explicá-lo em uma ramificação de detalhes. Eu não poderia sumir do planeta na hora em que eu quisesse, não poderia morar em meus sonhos. Me obrigo a viver, a ser destratada e a ser querida — o irônico seria dizer que, para mim, esses dois tratamentos soam como o mesmo. Se o pouco que sei é capaz de me afogar, jamais gostaria de, verdadeiramente, mergulhar no poço do conhecimento, apesar de já ser anestesiada por ele. Aceito suas respostas lógicas e conselhos funcionais, quando o meu desejo é levar-te a tocar as rachaduras da sua alma.
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Eu quero afogar na madrugada que todos chamam de perigosa, construir morada lá, lá mesmo, entre o sono dos que se recuperam e as risadas dos que andam ao meu lado, sem pressa nem sentido, onde a atenção é prestativa e a compreensão é elevada, sem performance nem mentiras, só o sintilar das Três Marias, a loja aberta do "seu João", luzes acesas vistas do terraço, shopping vazio. O mar da madrugada, em correnteza, longe do chão onde tudo importa, é o lar dos peixes em extinção.
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Se a vida soa contraditória,
qual o problema
em assumir ser mutável?
Não se pode fazer muita coisa
quando todos os acontecimentos
são pretérito imperfeito.
Descobrimos
que a resposta pelos erros
sempre esteve aqui.
Afinal de contas,
quem não é
água corrente?
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Será que é normal, na maior parte do tempo, se sentir menos? Porque na minha cabana, eu tenho os melhores super-poderes, mas fora dela, só há kryptonitas.
Quando não se tem o sacrifício de Jesus por suficiente, a vida inteira se torna desgostosa, é como se você descobrisse que está na lama, mas se entregasse a ela. A insuficiência, neste caso, não gera a ganância, mas uma visão turva e limitante conforme o saber. É como ver todas as coisas do mundo — até as mais comuns — te golpearem e você nem se quer pensar em desembainhar a espada. Não há uma molécula de esperança, o desânimo está sempre presente na convivência com a sociedade. A verdade cruel é revelada, mas não há fé de que ela possa ser destruída. Uma vida cristã é resumida numa trilha de montanha russa, mas o perigo é quando você não quer mais subir, mesmo sendo puxado pela corrente da engrenagem. Você se conforma com o estado da Terra, você se conforma com o seu estado, você não aceita a graça.
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Vemos apenas o vislumbre da realidade. Assistimos da areia o navio se distanciar no horizonte, e quando resolvemos seguí-lo, morremos afogados no mar da verdade.
— Eu sempre quis que alguma borboleta pousasse em mim, mas pelo visto, elas não pousam em pessoas pessimistas, e eu devo ser uma dessas pessoas — ela lamenta.
— Hm... talvez não. Talvez elas não pousem em você porque tem medo delas — ele responde, reflexivo.
— Eu não tenho medo de borboletas.
— Você tem medo de todo inseto que possui pernas finas e corpo rechonchudo. Eu acho que se alguma borboleta pousasse em você, você a expulsaria instintivamente.
— E como elas sabem que tenho medo delas? Eu acreditaria nessa teoria se borboletas fossem oniscientes e racionais.
— Sem querer ser arrogante, mas sua teoria sobre borboletas pousarem apenas em pessoas "do bem" também não faz sentido. Como elas sabem quem é quem?
— Ah... acho que entendi. Você está dizendo que Deus controla as borboletas?
— Hahahaha, bem... às vezes, sim — ele responde, olhando para o jardim à frente.
— Então Deus não permite que uma borboleta pouse em mim porque tenho medo, mas permitiu que uma barata pousasse?!
— Ele tem seus motivos. Talvez você não esteja pronta para desfrutar do belo, antes deve enfrentar o grotesco.
— Eu acho que isso é loucura.
— Eu também...
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Tudo o que é simples se transforma, então, em humilhação. A reação de desespero é inevitável e involuntária, mostra que o cérebro está assustado com a vida, envolto em suas próprias armadilhas. O sangue entra na conversação e ganha voz. Me diz que todos sabem desta situação e a desprezam. Depois, num impulso, meu corpo é recolhido. Não há como voltar atrás. Entre as sombras do dia e da noite, eu não sou ninguém. Eu o conheci, abafando minha audição e mutando minha voz.
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Nas profundezas da carne, há quem quase ninguém quer ser. O meu desejo seria ouvir que este ser não sou eu. Se todos o possuem, não há preocupação para se achar o pior, mas se sou apenas uma entre muitos, por que, em minha séria percepção, qualquer um consegue ser melhor? De certo modo, é uma colocação bíblica correta, mas só talvez, aplicada no território errado da alma.
Em meio ao soar diário de tantas buzinas, uma música no tráfego. Composta por notas frias e quentes. Composta por maestros de suas próprias vidas. Esperam o sinal esverdear. Para o trabalho? Passeio? Talvez um ou outro. Mas, numa melodia silenciosa, o destino de sempre ainda os chama — casa.