eu, que nunca soube pertencer
vivo entre as frestas do mundo;
como uma nuvem que não se molda,
como um sopro de mar que nunca chega à areia.
ele, ao contrário, pertence
pertence aos lugares
aos olhares
às conversas que não exalam hesitação.
enquanto me faço sombra,
ele é luz sem medo de ser notada
que invade a sala de forma sutil
me chamando pra entrar.
eu, que sempre temi a dor do sentir
o vejo, despreocupado,
desenhando emoções no vento
como se não doesse,
como se amar fosse apenas existir.
sempre pensei que eu fosse como ele,
que o mundo me admirasse como a ele eu admiro.
mas ele é o tipo de pessoa que o mundo deseja ter por perto;
e no entanto vejo que seria um privilégio ser alguém como ele,
não pela admiração alheia,
mas pela liberdade de ser sem medo,
de deixar a alma solta,
ou pelo simples fato de conter a leveza de caber em todos os cantos.
uma rosa repousa na alma vazia
vermelha e silente;
espinhos quebrados cravados na pele
quebrados feito promessas que
que com o tempo se curam e se tornam
cicatrizes sutis;
o tempo passa com mansidão
mudando os céus com tons desiguais
e eu que quis ser vento;
hoje sou folha seca e caída
mas ainda hei de ser
imensidão.
nem sempre posso oferecer
minha melhor versão(...)
as vezes doce...
as vezes amarga...
as vezes clara...
e as vezes escura...
mas sempre em busca daquela
que me tornará melhor.
entre palavras não ditas
o silêncio pesa
lembranças passadas
onde o amor se deita
nos olhos que brilham
mas não revelam o segredo;
o medo de avançar
o receio de um novo enredo
entre as linhas da saudade
a dúvida cresce
o que resta de nós?
o que o tempo oferece?
palavras esquecidas
gestos que se perdem
mas o coração insiste
mesmo que a mente negue.