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Ritual

Abracadabrante

Abracadabrante Havia qualquer coisa de profana na geometria daquele olhar, como se a noite tivesse aprendido a desenhar um corpo só para me provocar. Ele carregava nos lábios um silêncio venenoso, e eu, que sempre fui devota das coisas que deveriam ser evitadas, não soube evitar. Sua presença tinha um encanto abracadabrante, Uma maldição daquelas que ninguém deseja desfazer. Havia magnetismo na distância entre nossas bocas, uma eletricidade quase litúrgica correndo sob a pele, como se o desejo fosse uma criatura paciente esperando a hora de despertar. Ele não precisava tocar. Bastava se aproximar e todo o meu juízo virava fumaça. Meu corpo reconhecia o perigo antes mesmo que minha razão lhe desse um nome. E quando nossos olhos se prenderam, o mundo pareceu perder a luz, como se a noite, ciumenta, tivesse fechado as cortinas para assistir em segredo. Não sei se era paixão, feitiço ou alguma obscura anomalia do destino. Só sei que havia nele qualquer coisa de sobrenatural. E em mim, a vontade profana de descobrir até onde uma alma pode arder nas chamas sem se destruir.

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