Barão de Itararé @brunocolturato

As três máscaras

Estou deitado, o quarto em silêncio, a luz baixa que mal toca o chão, e na parede, em linha quieta, três rostos de madeira, sem coração. Feitos à mão, de tempo antigo, olhos fixos, que não piscam jamais: um parece rir, com lábios abertos, um parece chorar, em dores tais, e o terceiro, neutro, sem nenhum sinal, como quem nada sente, nem quer mais. Quando chego rindo, o peito leve, de histórias novas que o mundo me deu, a primeira ri, como se soubesse toda a alegria que em mim nasceu. As outras duas parecem mais suaves, como se a madeira também se aqueceu. Mas quando a noite vem pesada e fria, quando a saudade aperta sem querer, quando o arrependimento bate à porta, é a segunda que vejo se mover: ranhuras parecem lágrimas descendo, o riso da primeira some ao ver. E há dias que o mundo é só cinza, que nem tristeza, nem alegria há, o coração parado, sem vontade, é a terceira que todo o lugar ocupará: olhos vazios, boca fechada, como se a vida tivesse que parar. Juro que às vezes chego a tocar-lhes, ver se a madeira mudou de feição... mas o verniz continua o mesmo, a forma é a mesma, em qualquer ocasião. E então eu entendo, no meu cansaço: quem muda sou eu, na minha visão. Elas são só espelhos de madeira, guardam o que eu nelas quiser ver: se o meu olhar é luz ou é tristeza, é isso que elas vão me responder. São três máscaras, imutáveis, calmas — e eu que carrego todas em meu ser.

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