Transbordando em Metáforas
Não sei traduzir em palavras; palavras não parecem o suficiente quando a falta de ar é esmagadora. São sentimentos que me tornam, entortam e remontam — até me dissolverem em natureza exposta. Por vezes, sou a criança faminta de sentido, o silêncio não compreendido entre o grito e o eco, os pequenos destroços de grandes abandonos. Em outras, sou a voz da desesperança, a fagulha que pode orquestrar incêndios de revolta. Sou a semente murcha antes do plantio, uma pétala arrancada por vendavais violentos e deixada no caminho. Carrego o peso de desertos inteiros, conto cada grão de areia para me distrair da mórbida trajetória que tracei. O meu mundo — esse avesso constante. Vi montanhas caminharem para longe de mim, vi o sol morrer no tapete da entrada. Enquanto isso, o caos instalado no meu corpo, como doença silenciosa, costurava o medo na pele por baixo da alma cansada. Sou feita de restos e quedas, artesã de fios partidos e nós cegos. Mas há uma multidão de nós erguendo castelos de poeira e velhos egos. Vi o céu desabar inteiro sobre a terra, espalhando estrelas sem luz. Vi o rio desistir do mar, incontáveis vezes, até que suas ondas não tinham força para vingar. O que sobra é esse espaço sem batismo: uma hemorragia de veias invisíveis. Onde o fim não é o ponto — é o leito onde me deito e me recolho para esquecer. E, no entanto, o que sinto ainda é pouco demais e não cabe aqui dentro; é um peso sem densidade calculada, um grito sem garganta, um nome sem fôlego para ser anunciado.
Arturo
Muito belo seu poema!
𝔅𝔯𝔢𝔫𝔡𝔞
muito obrigada!! é uma honra receber seus feedbacks! :)