Gênese do Abismo
Relutando para chegar até a borda, Abandonando a atmosfera densa e sombria a qual pertencia, Sinto ainda meu ser ancorado em longa extensão de um tecido gelatinoso Na torpe memória de uma carne que me engana, Fui exposta a sons e luzes pulsantes Que me esculpiram brutalmente em moldes errantes. Recolhendo-me ao meu eu vazio de propósitos e paixões, Sou o monólogo de um corpo que nunca se encontrou, Entre o escarro do mundo e o horror de estar; Vim de uma sede antiga, profunda e cruel: A insistência cega de querer ficar Um sopro amargo! Emitindo estilhaços de vigília! Quisera fundir meu nada à poeira do chão, Numa simbiose de asco e de covardia, Antes que o parto fosse minha maldição. Bebendo o veneno do tempo vertiginoso, Eu me embriaguei com a dolorosa sentença; Engolindo o grito e o descompasso Que me tritura os nervos, alma vazia de nascença. E o que resta deste peito em guerra É a dor de uma chegada incompleta Aguardando o retorno ao silêncio, Cumprindo a penitência que me resta.
João
Seus poemas são lindos👏🏽❤️
𝔅𝔯𝔢𝔫𝔡𝔞
muito obrigada, João ♡