O abismo
Há uma tristeza em mim que não é tempestade. É maré. Ela vai e volta mesmo quando não há lua. A solidão não me cerca. Ela me atravessa. Passa por mim como vento frio que ninguém mais sente. Eu vejo o mundo com uma nitidez que dói. Percebo os detalhes, as ausências, os silêncios que ninguém comenta. Sentir demais é uma forma de exílio. Há dias em que me torno a espectadora da minha própria vida. Falo, ando, sorrio, mas algo em mim observa de longe como se já estivesse partindo. O mais difícil não é estar só. É ser inteira num mundo que prefere metades. Às vezes penso na morte como quem pensa em descanso. Não por querer partir, mas por estar cansada de sustentar um coração que sente tudo em excesso. Sentir demais cansa. Pensar demais cansa. Ser consciente demais cansa.
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