Quando a terra me engolir
Quando a terra me engolir sem pressa, que não venham com flores frescas traz-me os cravos mortos, aqueles que esqueceram no porão da igreja. Enterrem comigo os suspiros calados, os gritos que mastiguei com medo, e aquele sonho podre que se fingia viva entre as rachaduras da minha alma úmida. No cemitério, os túmulos cochicham. Não é o vento, são vozes partidas. E os espíritos, órfãos da carne, me convidam a dançar entre as ruínas. Corpo que ainda lembra do peso de um nome, mas os vermes não lêem epígrafes. A morte não tem pressa, ela vem descalça, com pés de lama e olhos de infância afogada. Ela me toca como quem afaga um velho amigo que voltou cedo. E eu a recebo sem oração, sem vela, sem redenção. Viver já era um ensaio mal ensaiado da partida. E agora, na cova, o silêncio me veste com o luto que o mundo não quis ver. Eles dançam em círculos inaudíveis, altivos fantasmas de outrora, com dedos etéreos acariciando a carniça dos sonhos que morrem antes de nascer. Sob o solo já movediço, a morte acaricia raízes famintas de histórias não contadas. E o espírito, leve como um suspiro, percorre os corredores do nada, plangente e sereno. No silêncio sepulcral, ouço seus cânticos: um coro dolorido de ausências vivas. E, ao fecharem-se os olhos da noite, sou eu quem se torna sombra entre sombras.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.