O mar de correntes
Todos admiram o preto no palco, mas poucos suportam ver a pele preta na rua. Apreciam a força, o ritmo, o talento, mas rejeitam a verdade que a pele carrega. Colocaram correntes em quem já tinha asas. Roubaram nomes, apagaram línguas, silenciaram os deuses. E ainda disseram que estavam “civilizando”. Não eram escravos. Eram reis, rainhas. Guardiões do saber antes que o mapa tivesse contornos. Hoje dizem Foi no passado. Mas o passado nunca partiu. Apenas aprendeu a se disfarçar. Veste farda, veste terno e veste silêncio. O chicote virou estatística. A senzala virou periferia. O navio negreiro virou sistema. E a escravidão, oportunidade negada. O corpo negro é confundido com perigo. A palavra negra ainda vale menos. O sangue preto seca antes de escorrer nas manchetes. A história negra foi editada com tesoura branca. A mulher negra? Foi usada. Depois esquecida. Mas carrega nos ombros os filhos do mundo e ainda sorri com dignidade que o mundo não reconhece. Quem defende meritocracia nunca começou a corrida com os pés acorrentados. Nunca precisou ser duas vezes melhor para ser visto como quase igual. Negro não é moda. É cicatriz exposta em vitrine de indiferença. Negro não é tendência. É eco do que tentaram silenciar por séculos. Não se trata de vingança. Trata-se de justiça. De memória. De coragem para parar de fingir que está tudo bem quando ainda se morre por ser negro. Quem não sente nada ao ler isso já escolheu o lado da omissão. Mas quem engole em seco, quem cala diante da dor, quem chora em silêncio, ainda pode ser salvo. Negro não é cor. É prova viva de que o ouro pode habitar a pele e ainda ser tratado como poeira.
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