Adailson poeta @adailsons
Poema

Neblina

Quando a luz apagava no quarto e o vento fazia barulho na janela a gente jurava que tinha um monstro no canto, até ouvir a voz da mãe Tá tudo bem, eu tô aqui. Ela sentava na beira da cama fazia carinho no cabelo e de repente o medo virava sono e o sono virava sonho de um lugar onde tudo era seguro. Teve aquele dia lembra? O pai levou a gente pra ver o mar ou uma cachoeira, ou só uma praça cheia de pombos. E a gente pensou Como pode o mundo ser tão bonito assim? Teve o primeiro tombo de bicicleta o joelho ralado e o mundo desabando, mas depois veio o sorvete e aquele abraço que curava tudo. Teve a primeira professora, com cheiro de giz e perfume doce que ensinava a escrever o nome como se estivesse nos dando o mapa da nossa própria existência. Teve o primeiro beijo meio torto, meio tímido coração acelerado como se o universo inteiro tivesse parado pra assistir. E teve gente que se foi. A vó que fazia café com cheiro de lar o tio engraçado que sumiu da mesa, o amigo de infância que virou lembrança. Mas cada um ficou em algum canto da alma, feito fotografia que nunca desbota. Hoje a gente é adulto mas ainda tem aquele medo às vezes. E daria tudo pra ouvir de novo Tá tudo bem, eu tô aqui. E mesmo que ninguém fale mesmo que o mundo pareça duro há um menino ou uma menina dentro de cada um de nós que só quer correr descalço e ver o céu ficar rosa no fim da tarde. Então feche os olhos. Respira. Se lembra. Você é mais forte do que pensa porque carrega dentro do peito tudo aquilo que já viveu. E o passado, quando é feito de amor é o que mantém a gente inteiro.

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