Rotatória
Eu mudei, ou achei que mudei. Tentei ser diferente, tentei tomar outro rumo. Trocar a faixa, a estrada, a rota. Mas nada adiantou. Voltei ao lugar onde comecei essa jornada. Com novas roupas, novas palavras e novos sonhos, mas novamente a mesma estrada, o mesmo horizonte, a mesma caminhada. E foi então que percebi algo perturbador: Talvez eu nunca estivesse tentando escapar do caminho. Talvez estivesse tentando escapar de mim. Sabe qual é a pior parte da depressão? Não são as lágrimas. Não são as noites em claro. Não são os dias em que levantar da cama parece impossível. É quando ela permite que exista esperança. Um lampejo de felicidade. Um breve instante de paz. Um momento em que você acredita que finalmente está melhor. Mas ela sempre vem com prazo de validade. E quando termina, leva consigo tudo aquilo que havia construído. Como uma maré que recua, arrastando consigo os castelos que você passou tanto tempo tentando erguer. Então você começa a se perguntar se algum dia realmente mudou. Se toda essa jornada significou alguma coisa. Se cada passo adiante não passava de um círculo disfarçado de estrada. E, no fim, surge o pensamento que mais assusta: Talvez a depressão não habite minha alma. Talvez ela esteja impressa nela. Como uma cicatriz antiga. Como uma marca permanente. Como uma assinatura deixada em algum lugar que nunca conseguiu se curar. E então eu percebo que o medo não é carregá-la comigo. O medo é descobrir que, depois de todo esse tempo, ela não está comigo. Ela sou eu. — Z —
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