Segredo da maré e do cacho

Na margem onde a areia fita o abismo, ela parou, a pele tingida da cor exata do âmbar da terra que o sol mais ama. O Mar, antigo e turquesa, estancou o próprio fluxo, seus olhos líquidos fascinados por uma beleza que nenhuma de suas lendas jamais previu. "Onde aprendeste a desenhar?", perguntou o oceano, com voz de espuma acariciando os pés dela. "Vê a tempestade de teus cachos, como se entrelaçam, como se cada mola fosse um segredo do vento? Eu tenho ondas poderosas, mas nenhum de meus desenhos possui essa mística, esse mistério que te coroa." Ela, com o olhar voltado ao infinito onde as cores se casam, levou a mão ao peito onde o peito guardava mundos, e perguntou ao velho mestre das águas: "Diz-me, mar: como acalmar esta maré secreta, essa onda que avança no peito e me afoga, quando a alma transborda em silêncio e solidão?" O Mar suspirou, erguendo espumas como quem aprende a lição: "Filha da terra e do sol, nunca enterres teu próprio caudal. Eu sofro porque guardo abismos que ninguém navega; mas tu tens o dom de entregar o que pulsa e ama. É mil vezes mais nobre dizer que se ama, do que deixar o peito naufragar no transbordo da solidão." E ali, ouvindo o conselho que virou âncora e brisa, ela abriu o mapa do peito e deixou o amor correr livre. O Mar sorriu na espuma, espelhando a sua coragem, entendendo que a verdadeira imensidão não está em se fechar, mas em ter a coragem de entregar o que transborda.
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