Afogando-se em um sonho
O sonho não começa suave. Ele invade. Escorre pelos meus pulmões como água morna, brilha por dentro e ainda assim pesa. Eu respiro. Mesmo sabendo que não é ar. Há uma beleza perigosa nisso. Algo que vibra forte demais, quase brutal. O peito aperta e eu não recuo. A superfície nunca me prometeu nada. Aqui embaixo, pelo menos, tudo lateja. Meus pés não tocam o fundo. O alto desapareceu faz tempo. Fico suspenso nesse meio impossível onde cada sensação cresce até doer. O sonho sussurra promessas afiadas. Diz que posso desejar sem culpa, que posso tocar o que arde sem baixar os olhos. Diz que existe um lugar onde minha fome não se esconde. Eu acredito. Mesmo quando a água pesa nos ombros. Mesmo quando os olhos queimam. Cada lembrança vira correnteza. Cada vontade puxa meus tornozelos. Meu nome perde contorno. Minhas certezas afundam primeiro. Há um instante em que o medo se cala. Não por coragem. Por rendição. O corpo deixa de resistir e a água me toma. Se for para afundar, que seja aqui, onde o coração vibra alto demais para caber no mundo seco. Que seja nesse sonho que me atravessa, me desfaz, me dissolve e ainda assim me faz escolher ficar.
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