Meus Amigos da Madrugada
A madrugada se deita fria e a cidade inteira descansa. Só a minha mente não. Ela desperta, me puxa pelos pés e me arrasta para dentro de mim. Eles chegam devagar. Sentam na beira da cama, encostam no meu ombro e respiram no mesmo ritmo que eu. Sejam bem-vindos. A casa está bagunçada, mas vocês nunca se importaram com isso. O que trouxeram hoje? Quais desastres ensaiaram para amanhã? Quais lembranças decidiram repetir até ferir de novo? Meu coração dispara como se algo estivesse prestes a acontecer. Mas nada acontece. É só o medo encenando tragédias que talvez nunca existam. E você também veio. Preocupação excessiva com o que ainda nem aconteceu. Sente-se. A noite é longa. Durante o dia ninguém percebe. Eu sorrio fácil, faço graça, seguro o mundo dos outros com mãos firmes. Sou abrigo para quem desaba. Sou riso alto nas conversas. Sou equilíbrio aparente. Mas aqui, no quarto escuro e desorganizado, eu tiro a máscara e o silêncio me reconhece. Aqui eu não sou forte. Sou aquele que ninguém vê. Há quanto tempo vocês me visitam? Eu já não sei. Talvez sempre tenham estado aqui. Faz tempo que não me encontro no espelho. Faz tempo que vivo no automático. Faz tempo que não vivo em paz. Faz tempo que atravesso os dias sem realmente habitá-los. Um dia talvez nos despeçamos. Talvez eu aprenda a fechar a porta. Mas, por enquanto, acomodem-se. Vocês já sabem o caminho.
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