O Baile
Há gente dançando em toda parte. Corpos frenéticos aos sacolejos Se entrechocam num frenesi de excitações, Matando a fome de seus íntimos desejos. Há muita fome nessas casas, Mas ninguém se satisfaz. Há muito egocentrismo conjunto, E a fome se remexe tornando-se mutua. Dancem, dancem rebeldes transportados De prazer sintético e passageiro. A fome não cessa nunca de latejar. A fome baila com João. Ninguém se importa com a dança de João. João não existe, ele não é ninguém. A fome goteja torturantes condições E mais pede, mas não se pode dar. As pessoas dançam uma musica morta No recreio de suas frustrações. A fome não passa, mas delibera, Mas argumenta, mais se sustenta. A fome existe, e ninguém nota. Estão todos dançando em sua volta, De costas para sua cara de fome, Matando a sede da própria afetação.
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