A rua por inteiro passa,
crianças em suas carroças,
velhos em suas maquinas importadas
de conhecimentos alheios.
as senhorinhas vedem pamonha como nos velhos tempos.
A rua passa...
esparsa,
só o vento flutua verdadeiramente insatisfeito...
as missaguinhas pulam junto às menininhas jubilosas em enleio.
o tempo, ele apenas é que é dono de si.
enquanto isso a rua passeia fragmentada, mas quase completa.
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Vejo minhas pernas
Levantando-se e indo embora.
Vejo-as tomando um banho
E preparando um café.
Vejo elas descerem as escadas,
Irem ao cinema,
Sentarem em um bar.
Vejo-as se enfiando
No meio de outras pernas,
Depois saindo por aí
Chutando tampinha,
Batendo bola na quadra,
Pedalando,
Correndo de cachorro louco,
E sentindo cãibra.
Vejo-as escalando montanhas
E na ponta do precipício
Sentir um frio na panturrilha.
Vejo-as se ajoelharem
No genuflexório
E rezarem por mim
Que estou estou deitado
Em meu sofá,
Sem minhas pernas para o ar
Esperando-as retornar.
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Cato palavras
Como cata, a cozinheira,
Caroços de feijão.
As coloco, que nem ela,
A cozir sob pressão.
Ao pô-las servidas,
De meu vocabulário,
Nestes poemas-pratos
Vez ou outra encontro,
Mesmo com tanto cuidado,
Uma pedra em meu caldo.
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A pena que caiu
Do rabo da pomba
Manchou de merda
Os adjetivos que escolhi
Para venerar teu sorriso
Há gente dançando em toda parte.
Corpos frenéticos aos sacolejos
Se entrechocam num frenesi de excitações,
Matando a fome de seus íntimos desejos.
Há muita fome nessas casas,
Mas ninguém se satisfaz.
Há muito egocentrismo conjunto,
E a fome se remexe tornando-se mutua.
Dancem, dancem rebeldes transportados
De prazer sintético e passageiro.
A fome não cessa nunca de latejar.
A fome baila com João.
Ninguém se importa com a dança de João.
João não existe, ele não é ninguém.
A fome goteja torturantes condições
E mais pede, mas não se pode dar.
As pessoas dançam uma musica morta
No recreio de suas frustrações.
A fome não passa, mas delibera,
Mas argumenta, mais se sustenta.
A fome existe, e ninguém nota.
Estão todos dançando em sua volta,
De costas para sua cara de fome,
Matando a sede da própria afetação.
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um pedaço meu chora
um outro ri
outro ignora
e o outro tenta fugir
meu sorriso
chora
meu choro
sorri
meu coração tenta
fugir
meu olhar ignora
enquanto meu coração sorri
meu choro foge
e a ignorancia permanece aqui
meu coração chora
enquanto o olho sorri
meu sorriso ignora
o passado tentando fugir.
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O corpo nu é um deserto,
Até que alguém o cubra.
O corpo é um deserto,
Nu de explicações.
O corpo é um deserto de excitações,
Nu de alguém.
O corpo, nu de alguém,
É a explicação para o deserto,
Até que de alguém se cubra.
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Este rosto sem face que tanto me encara
Estes olhos vermelhos que nada me falam
Este sorriso cansado que os dedos disparam
Hahahahahaha.
Certamente não teve tanta graça!
As mãos que alimentam, que limpam
Que amam, que pedem uma benção,
Estão sempre ocupadas enterrando as horas
Escoadas com o tempo que nunca mais volta
O bolso apertado que carrega o mundo,
É o mesmo que outrora levava uns trocados,
O mesmo que levava uns cigarros;
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A preguiça sagrada
É o corpo, a mente e a alma
Em estado de nada.
Pés suspensos.
Olhos lentos.
Braços va-ga-ro-sos...
Tampando a boca que boceja um beijo
Ao tempo que condescendente,
para.
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A sombra que se estende
Entre a luz e o espelho,
É a mesma que se sente
Entre a dor e o apego
Não há silêncio na escuridão,
Não há voz que se ouça.
Tudo é tristeza na força
Que se faz para viver em solidão.
São curtos os sorrisos
Neste vasto por vir,
Amargos os corpos invisos
Daquilo que se negaram sentir.
A ausência de amor
Desmorona a paz.
A vida se veste da cor
De tudo que ficou para trás
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