Estaríamos em união
soubéssemos de invasão
alienígena.
Transbordaríamos afeto
ao inimigo hoje certo
houvesse um perigo maior manifesto
Rancor nenhum haveria
Haveria, entre os espécimes, empatia.
Estaríamos em união
soubéssemos de ataque
alienígena.
O amor seria manchete.
Julgamentos iriam à prisão
Estaríamos em união
não fôssemos nós
nossa condenação
II
Percebo sermos de nós mesmos a ameaça
Um antigo medo tornou-se contemporâneo desejo:
Abdução
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Desde os australopitecos já é costume se agrupar
Ideais compatíveis evita, às vezes, mal-estar.
A reflexão nasceu após nascida a linguagem.
Com a criação das letras veio a salvação e a maldição da humanidade.
Com a criação das letras veio a salvação e a maldição da humanidade.
Poderiam se compreender, puderam se estranhar.
Domaram o fogo, a matemática, o tempo, até o mar.
Domadas tantas coisas perceberam-se condenados a domar.
Domadas tantas coisas perceberam-se condenados a domar
Um só é solilóquio, se tem dois pode ser caos.
Para cada loucura no mundo outros três loucos para acharem-na sensata.
A bagunça “humanidade” é dividida em países para ser compactada.
A bagunça “humanidade” é dividida em países para ser compactada.
Surgiram os territórios, os exércitos, as crenças, os céticos.
Surgiu o canto céltico, o jazz, o Rock ‘n’ Roll, a MPB.
Surgiu a metalurgia, o rádio à pilha, o preto e branco, a TV.
Surgiu a metalurgia, o rádio à pilha, o preto e branco, a TV.
Construirão robôs e espaçonaves, sairão da Terra para sobreviver.
Colonizarão outro planeta, serão messiânicos para uma interplanetária nação.
Tudo repetir-se-á. Terão sido as letras salvação ou maldição?
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Que o colo da mãe nada no mundo melhor havia.
Aconchegava-se no abraço apaziguador.
O acalento maternal tornava-o sonhador.
Núcleo caloroso.
Sensação igual não há nem haverá.
Reviver a infância tão doce cura seria!
A fé inabalável cedera ao tempo
Drogou-se do mundo, aprendeu a perder.
Interessou-se num novo bocado de coisas.
A matriz foi sendo esquecida.
Um vazio crescente tornou-se rotina
Procurou distrações e disfarces à vida cretina.
Com calma, já velho, caiu choroso.
Percebeu que viver é sentença de morte.
Atravessou o corredor sem aproveitar
Não valorizou quem lhe foi, por nove pesarosos meses, lar.
Restou-lhe um clamor por desejar retornar
Restou-lhe pesares e um mal-estar.
Por fora, escravo, servente do mundo; predador de si mesmo.
Por dentro, criança, querendo, de novo, no colo da mãe, se aninhar.
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Desde que o mundo é mundo
Buscamos algum tipo de proteção
Damos nosso destino há alguma divindade,
tornamo-nos acorrentados por frívolas teorias
Pensamos pouco e nos classificamos como estupendos donos da verdade!
Somos astros apartados da Filosofia.
Certas estrelas não brilham com autonomia
Observei o céu, fotocópias nele havia.
Gerou-se o medo de ser diferente
Disseram que assim só age o imprudente
Disseram demais sabendo de menos
Crias da Terra julgando as de Vênus.
Ser igual não é estranho; diferenças fazem parte
Não ouviram um disco provindo de Marte, houve alarde.
Um extraterrestre no encarte. Metade humano, a outra metade sem traje.
Poderíamos tanto, mas apartados teimamos em remar.
As frágeis gotas encontram um obstáculo
Insistentes, coletivas, onda após onda, podem continuar.
Falta a nós, astros, a união e a fé vista no mar.
Não há estrela que sozinha possa o céu iluminar.
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Talvez ainda seja muito cedo
para dizer a si mesmo
que passou tempo demais.
Talvez ainda seja muito cedo
para dizer a si mesmo
que já é tarde demais.
Talvez ainda seja muito cedo
para temer o futuro
e não aprender olhando para trás.
Talvez ainda seja muito cedo
para num desesperado impulso
convidar-se a sete palmos com um corte no pulso.
Talvez ainda seja muito cedo
para, por medo, virar ermitão
fugir da civilização, mergulhar em solidão.
Talvez ainda seja muito cedo
para finalizar esta poesia.
À m’alma resta apenas caprichar na pontuação...
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E se eu passasse o resto de meus dias dizendo que te quero
ainda assim estaria dizendo pouco
Para demonstrar a quantia exata seria preciso burlar a invejosa morte
e dobrar a estimativa de vida
Aí talvez assim eu chegasse perto do necessário para esculpir o sentimento
Aí talvez assim você me percebesse trocando de pele como coral nascendo de novo
Tentando deixar a sujeira de lado, não só por ti, por ambos
E se eu passasse o resto de meus dias dizendo que te quero
feliz eu teria vivido a vida.
E se eu me declarasse tanto quanto mereces
às noites eu estaria rouco.
Proclamarei o meu amor de modo comedido só para não virar clichê
Eu repetiria mil vezes a mesma frase, do despertar ao adormecer.
Olhando intensamente em teus olhos: eu amo você.
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Cada dia uma nova chance para não ser mais os erros de ontem.
Não sei ao certo qual fora meu erro
Percebo apenas estar condenado
Grades me cercam, algemas nos pulsos
Respiro ainda. Deveria estar grato?
Não matei o Sr. Tempo, ele me matou.
Latrocínio, eu diria: meus sonhos, roubou.
Dez anos de pena: o tempo que me restou.
Não sei responder quanto ao motivo do crime
Quando dei por mim sangravam minhas mãos
O vermelho não me pertencia!
De minha vida era apenas a literal representação
Não matei o Sr. Tempo, ele me matou.
Latrocínio, eu diria: meus sonhos, roubou.
De mim, sinto pena, “sobram ainda dez anos!”
me chamam de louco. Mal sabem como é a cela dentro do meu corpo.
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Sou muito daquilo que não desconfiam
os olhos não mostram o grito da alma
a beleza é fruto de generosas perspectivas
a decepção advém de incoerentes expectativas
Sou muito daquilo oculto nas sombras
sou luz, sou perigo, sou poço sem fim
vivo ambivalências, vivo inconsistências
sou paz, sou conflito, demônio e querubim.
Sou muito daquilo que ainda não sei
aprendo comigo severas lições
procurando abrigo em inaudíveis canções desvalorizo as belas obras que outrora criei
Sou muito daquilo que muito chorei
escrevi versos com tinta e com sangue
sobrevivi por imensos capítulos de dor
fui enterrado cem vezes; cem, ressuscitei.
Sou muito de mim e muito dos outros
sou tanto original quanto reciclado
sou água doce e oceano salgado
há em mim padrões e idiossincrasias
Sou alma sentenciada, sou alguém no limbo
sou metade minha mãe, metade meu pai.
sou a incerteza de tudo; a convicção de nada; metade labaredas e metade enseada.
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I
Seria o tempo herói ou vilão?
Por frações de segundos pode-se alterar a percepção.
O tempo pode ser castigo eternizado.
Pode ser absolvição.
O tempo presenteia com a vida e mais tarde nos furta a infância.
O tempo é aprendizado e impiedoso ressalta nossa ignorância.
A prévia dizia que muito eu sabia.
Na hora eu soube que sabia de nada.
Regozijo-me hoje;
amanhã, já não sei.
E se hoje tropeço
amanhã saberei
caminhar em solo adverso.
O tempo ensina que dar um tempo pode fazer bem.
Um tempo longe de Deus; um tempo perto de alguém.
II
Somos uma organização de instantes, não episódicas sensações.
Tanta culpa é carregada por causa de triviais oscilações.
É normal estar jubiloso num dia e noutro ansiar por morrer.
Ninguém é júbilo vitalício – anote aí, senhor Deus, poderíamos ser.
A morte é o único instante que não permite ninguém de se arrepender.
Cada instante é a reprodução do somatório de tudo outrora aprendido
com aquilo que ulteriormente espera-se aprender.
O tempo pode ser o pior dos pecados; pode ser fé trazendo novos significados;
pode ser veneno ao vivo; torniquete ao ensanguentado.
O arrependimento é um alerta de que se está aprendendo a viver.
III
O tempo é danado. Sem ré e sem freio.
Transforma-nos um bocado.
Modifica a lista de desejos: sobreviver substitui voar e se torna o primeiro.
O que éramos há um minuto não seremos novamente no futuro.
As cicatrizes dos cortes nos peitos estarão sempre evidenciadas,
mas não há hemorragia emocional que não possa ser estancada.
Erro pode tonar-se aprendizado.
Uma falha pode seres traumatizados gerar.
Gênio algum sairia da lâmpada se ficasse amedrontado
com a mão do estranho que ronda seu lar.
O tempo revela segredos e esconde verdades.
Confunde sábios, confronta as trevas, gera repetições, é inevitável.
IV
O tempo é uma infinita sandice.
Parto, crescimento, reprodução, velhice.
A regra é bem conhecida.
Somos peças clichês,
a vida é tabuleiro surreal.
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