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(NEGRO ESCARAVELHO)

@Tetelo · desde 2019

Sim, Doutor! Sou poeta de nascimento!

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HÁ UM MONSTRO DEBAIXO DA CAMA

Num pútredo momento Fitei nas entranhas do aposento Um monstro boçal, agourento Que apraz meu sofrimento Meus fantasmas fugiram Os demônios se esvairam Temendo o desatinado sujeito Que arraigado ao pé do leito Sorvera o canto do peito E nas horas mais profundas Debaixo da cama, oriunda Vem a insonia em noite pálida Arranca-me a manta cálida E me atira na gélida cama Aspira o vigor, débil clama Meus olhos sem lume, profana E atroz, meu riso afana Entre as teias de aranha No assoalho de dor tamanha Alapou-se a torpe aberração Refastelo-me por cima Ele espreita no frígido chão Trincheiras do vil colchão. Batalha da escuridão! Há um monstro debaixo da cama De codinome depressão

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PRIMAVERA DESBOTADA

A primava já passou. Só me resta falar das flores, da donzela e do quarto vazio. Falar da azeda saudade, do beijo doce como jamelão e do perfume que emana dos seios. Ainda me resta falar do charme do jeans desbotado, dos ursinhos bregas e dos buquês, da lua e da serenata, dos recadinhos e da praça, das indiretas no caderno de perguntas, do beijo com balas refrescantes, dos romances em VHS... A primavera perdeu as cores. Só me resta recordar do encanto do namoro escondido, de pedir a mão aos pais, de dancar de rosto colando, dos versinhos e das mãos dadas, das pétalas secas dentro do livro, de gravar o amor no tronco da árvore, do amigo diário... Quero desenhar corações, vivenciar as canções, escrever em papel de carta perfumada. Quero embalar o beijo com canções estrangeiras, mesmo sem nada entender. A primavera faleceu Sobrevivo neste inverno cinza, triste e gelado, tão frio quanto os corações dessa geração online A primavera mais florida já passou E ela não volta mais. .

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TEUS OLHOS

Duas luas na terra de luz perene Deslumbro-me fitado no íris celeste Meu peito ladra em gentil devaneio Rogo-te pálpebras em servidão inerte Grácil lume concebe em ruinas trevas Alvas brumas, esclerótica lunar Fúlgidas chamas a vaidade encandeia Farol da minha libido em agitado mar Teus olhos, mulher, é fogo que abranda Tuas pupilas medram e meu corpo dilata Na face morena a constelação, o brio Alastra o esplendor em fagulha inata O crepúsculo entrelaça em negros olhos Cintilante aurora, a matina rangeu Teus cílios tênues me acenam vibrantes Em lagos profundos a pupila fendeu Teu olhar balburdia meus sentidos, agora Faca-me aquarela em sua hábil retina Banirei a lágrima em vislumbre pasmo Afanei dos teus olhos a esbelta menina .

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POETA BÊBADO

Folhas são trampolins A mente, um arsenal Poesia é aquarela Brasil, um carnaval Sou um poeta bêbado Sem prestígio, em viela escura Sou um desafortunado Exalando urina e ressentimento Dai-me uma cachaça E uma caneta E eu lhe darei de volta Um carnaval triste Um samba melancólico E lhe mostrarei uma multidão Sambando sorridente Em suas próprias desgraças A vida é uma corda bamba O poeta é o acrobata É um bêbado Que aprendeu a flutuar Neste circo verde amarelo

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