..
Moestes minha carne Com sovas, sangue e dor Conspurcou minha inocência Com tua depravação Teu deboche Teu cinismo Teu controle Fizestes da terra Um caminho de brasas e espinhos Uma cama de pregos Onde não repousam os sonhos Minha infância morreu precipitadamente E tornei-me sombra Se o diabo amassou o pão Foi esse o meu sustento Anos a fio e mesmo livre Os grilhões arrastavam-se Junto com os passos miúdos Encolhi tanto que senti ser menor que um átomo E pensei que o último ato seria redentor Então deixei enterrar-me 1, 2, 3, inúmeras vezes Pra matar qualquer recordação Do que foi você, Do que fui eu, Engodo... Cresci, A contragosto Não mais subserviente Não mais inocente Não mais vítima Não mais vil Não mais infeliz Cresci Senhor de mim As cicatrizes Viraram escudos Não sangram mais Não temem mais açoites Fostes tu que com tua furia Cega e insana Ensinaste minha bravura Minha resistência Minha dignidade Minha coragem Meu valor Sim, toda vez que Meus joelhos vergaram Minha inconformidade Cresceu, ganhou tamanho De ciclope e venceu a mim. Se foi o ódio o primeiro impulso Foi a compaixão o caminho mais árduo Que perdão não é justiça, Não é esquecimento, Não é permissão, É perceber que o outro seja o que for Não é seu próprio coração E quem sou eu? A força dos sobreviventes A gana dos miseráveis, marginalizados, A constância dos idealistas Dos utópicos, dos que levantam bandeiras e derrubam muros A imaterialidade dos poetas, dos enamorados, A criatura e o criador de mim . Autora Stela Sartori
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.