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A faca escorregou e cortou a pele como se fosse folha de papel. O sangue jorrou quente e farto. Não me assustei, não senti dor. Assustei-me, contudo a ordem era prioritária, limpei o chão, a faca, guardei a louça, troquei de roupa e só então fui ao hospital. Fiz piadas, o medico não sorriu. Costurou os pontos num tédio escandaloso. Doeu a alma. Latejou a mão, os pontos, a falta de empatia. Ele estava num dia ruim e eu? Sou apenas desastrada. Doeu não ser acolhido com brandura na minha fragilidade. Foi um pequeno corte, mas exagero os fatos. Me medicaram, vacinaram e despacharam com a mesma alvura das paredes do hospital, com seus sorrisos discretos. De certo o silêncio deva prevalecer na dor, seja qual for, pra qualquer outra pessoa. Quanto mais dor eu sinto, mais sorrio e tagarelo. É preencher lacunas com isopor pra depois atear fogo e tudo virar cinzas, fumaça. Sou assim, uma fartura de palavras. Meus silêncios, muito sérios, muito íntimos raramente são partilhados. Pirralha. Achas? As vezes, nem sempre faço questão de ter razão ou razões fundamentadas. Voltei com o dedo enfaixado em gaze. Exausta deitei esperando a dor abrandar pra conciliar o sono. Adormeci sem lembranças. Despertei mais um dia, longe das facas. O dedo continua enfaixado, até cicatrizar. Já meu coração, esse não cicatriza tão fácil, é teimoso demais, manhoso demais, afetado demais, demasiadamente imenso e insano, teatral, visceral, melodramático. É coração de poeta e de quebra as dores que sente mente ou exagera só pra poder versar. Blá, blá, blá...
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