Caso à parte
Se me vires aqui, tão só, deixado ao abandono, não perguntes por quê: vem, e fica um instante; há noites em que o homem perde até o próprio nome e precisa de outro olhar para tornar-se constante. Tira-me desse lugar onde o silêncio pesa, onde meus olhos cansados já não sabem repousar; não há lágrima que diga, com exata clareza, o que a boca, por orgulho, não consegue confessar. Tu és meu porque, não de existir por costume, mas de ainda caminhar quando tudo parece cessar; és a pequena desordem que, contra o próprio lume, me devolve alguma coragem de tentar. E eu te amo sem a astúcia de quem teme o que sente, sem promessa ensaiada, sem disfarce ou condição; amo-te até quando teu coração, tão ausente, parece ter aprendido a negar-me a própria mão. Dá-me um abraço antes que eu desaprenda teu calor, antes que a distância torne estranho aquilo que foi nosso; há uma espécie de inverno que não vem do frio, vem quando já não reconheço o lugar do teu rosto. Então me toca a alma, se ainda houver caminho, e deixa que eu te diga, sem precisar de alarde: há encontros que o mundo chama de acaso, e nós, por alguma razão, fomos caso à parte.
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