Lucas Sartori @Sartorius

Coestar anamnático

Ouve-se o apito estridente do trem. Neste horário, como sempre, um grande tumulto de passageiros à espera. Mas em tantas vezes que este apito foi ouvido, jamais notei esta dimensão que traz não proximidade, d'intimidade. Deve ser outro tempo, outro ritmo: uma frequência aguda, inalcançável, que fura o meu captador de som. Atinge uma nota interna, um outro lugar de ouvido, e ali se instala, incômodo, feito o silêncio d'um diário, na escrita de desabafo. O que é a escrita humana se não a tentativa de não se esquecer como viver a vida? Memoriar o viver passado do porvir em espera contemplativa de virar levemente o pescoço, encarar o atrás, apenas por fazer o que passou. E... entre incontáveis e possíveis momentos de espaço, por estar e ser nesse cosmos, nada me prepararia para o milagre de coestar bem aqui, no brilho do seu olhar, onde o movimento nasce. Pois ali, desliza a lamina pela epiderme gélida. Gire e pule! Em rodopios de superfície liquidaz blocosa congelante. Roda em finta tripla, de salto dupladamente aerobirritmado, e se joga em aplausos de cintilante arbóredo contornado, por naquele palco lagoático. Tudo se funde neste espaço de inspirância, em ardente paixão neste nosso ringue de neve glaceado. - 𝐴𝑛𝑎𝑚𝑛𝑒𝑠𝑒 𝑑𝑒 𝑢𝑚𝑎 𝑒𝑝𝑖𝑓𝑎𝑛𝑖𝑎. 𝕷𝖚𝖈𝖆𝖘 𝕾𝖆𝖗𝖙𝖔𝖗𝖎.

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