Meu Melhor Inimigo
“Entre os Estilhaços do Relógio” Havia um tempo onde o tempo era nosso — corríamos sem destino, com os joelhos ralados e o coração inteiro. Entre engrenagens partidas e promessas infantis, eu te vi se partir… em cores berrantes, em vozes que não eram suas. Eu tentei te alcançar, gritando o seu nome antes que ele virasse outro. Antes que você deixasse de existir. Mas você… Você se prendeu no eco do estouro, e se fez trovão, e se fez loucura. Enquanto eu quis ser abrigo. Enquanto eu guardei sua risada como se fosse relíquia de um passado que me queimava nas mãos. Você dança com granadas como quem quer voar, e eu apenas… queria que voltasse a andar. Te odiei por me forçar a lembrar. Te amei por nunca ter me esquecido de verdade. Cada tiro seu era uma pergunta — "Por que você me deixou?" e cada silêncio meu era resposta: "Porque eu também era criança." E mesmo assim... tentei congelar o tempo. Tentei consertar a ampulheta que nos virou de cabeça pra baixo. Mas nada segura o que quer explodir. Você sorria com olhos vazios, mas eu via um reflexo... A menina de antes, com as tranças tortas, a que ria alto quando a gente roubava pão, a que me fazia acreditar que a paz era só uma esquina de distância. Será que você ainda se lembra? Do balanço improvisado, das histórias que inventamos antes de dormir, do jeito que eu sempre te protegia das sombras... Agora você é a sombra. E mesmo assim — Eu ainda voltaria no tempo mil vezes, mil vidas, só pra segurar sua mão de novo antes do primeiro tiro. Sabe, às vezes sonho com o dia em que nada disso aconteceu. Em que eu te puxei pra fora do fogo. Em que você chorou no meu ombro. E nós seguimos vivos, mesmo que quebrados, juntos. Mas acordo e você não está lá. Só a cidade ferida, só o relógio marcando o atraso da minha coragem. E você? Você ainda dança nas ruínas, com olhos que não me reconhecem, mas mãos que hesitam antes de puxar o gatilho. Eu entendo. Eu entendo tudo, tarde demais. Se eu tivesse dito que te amava antes do mundo desabar... *Baseado em Arcane
Arturo
Lindíssimo! Parabéns!
Ricardo Ferreira Guedes
belíssimo poema 👏👏