fany˖⁺‧₊ @PoucasPoesias

reserva

Eu despejo em ti e tenho contigo Uma reserva do meu ser, da minha essência. Pra que nunca me falte mais de mim no meu peito (e que eu não me falte nunca mais). Te deixo um pedaço sem peso, um sopro guardado na tua memória, um eco de mim no teu riso aceso, um rastro invisível na tua história. Deixo no teu peito um abrigo, um fio da minha canção, feito gota que escorre contigo umedecendo a tua mão. Deixo em teus olhos a estrada, e na tua boca o meu calor, deixo em teu riso a alvorada, e em teu sono, o meu rumor. Te entrego a sede e a fonte, a lembrança e a invenção, pra que, ao buscar minha própria fronte, me encontre viva na tua mão. Se o tempo for rude e disperso, e eu esquecer quem sou por descuido, bastará que respires meu verso, pra que eu retorne de tudo o que fujo. Se um dia me faltar o alento, me buscarei no que deixei: em ti, serei o movimento de tudo aquilo que amei. Te despejo o que sou, sem medida, te confio o que é meu por raiz, pra que a ausência vire vida e eu me reencontre feliz. E assim, mesmo longe ou calada, serei tua – e serei minha também: um pedaço de alma ancorada no espaço onde mora o que vem.

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