Carta pra não enviar
Se te escrevo, é porque ainda ouço o eco da tua presença. O teu nome, embora distante, reverbera no silêncio dos meus dias, como um vento que passa sem ser notado, mas que, ao seu toque, desorganiza tudo à sua volta. Eu te conheci quando o coração ainda acreditava em certezas, mas, ao te encontrar, aprendi que algumas pessoas existem para ensinar a dor. E, ainda assim, houve algo em ti que se aninhou em mim, uma ternura que agora se mistura com as sombras e que, embora não queira, ainda me faz pensar em você. Dizer que te detestei seria de longe mentira, mas como posso explicar a tristeza que trouxe tua presença? Você, que tanto me deixou em silêncio, e que, em cada gesto, fazia com que eu me perguntasse se o amor é capaz de ser uma ferida aberta, ainda quando não se vê. É estranho, sabe? Porque a tua ausência ainda dói, mas a tua presença me pesa de um jeito que não sei definir. Eu te dei tudo o que podia — e me vi com as mãos vazias, em troca de algo que nunca soube como aceitar. Por que ainda te escrevo, então? Talvez para que as palavras, ao menos, me libertem do que ficou preso aqui dentro. Talvez para que o silêncio entre nós não seja mais pesado do que aquilo que nunca falamos. Eu não te culpo — nem mesmo tento entender por que a nossa história foi assim. Mas a verdade é que, mesmo agora, o pensamento em ti sabe como desarrumar meu peito. E isso, de algum modo, te mantém comigo, sem que eu queira, sem que eu possa fugir. O que ficou foi só amargura, e talvez, só agora, perceba que foi isso que me moldou. Fica com o que ficou. Fica com tudo o que não pude te dizer. Mas fica longe, onde eu possa, finalmente, respirar sem existir em você. Você nunca saberá desta carta. Ela é minha — isso você não me tira! — e em sua solidão, me liberta. Talvez, no fundo, eu tenha aprendido que há amores que são, sim, apenas dor, mas que, mesmo assim, eu chamei amor.
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