A metade das Minhas Cicatrizes
A metade das minhas cicatrizes tem o tamanho da minha infância, guarda a memória de um menino que desconhecia a palavra medo e desafiava o mundo com a coragem da ignorância. Fui criança levada, dessas que não conheciam limites, que faziam da rua um universo e das aventuras, seus convites. Caía, levantava, seguia em frente, com os joelhos feridos e a alma sorridente. Não tinha medo do escuro, nem das sombras pelos corredores. Não temia almas, demônios ou histórias de terror. Enquanto alguns fechavam os olhos, eu procurava descobrir o que se escondia por trás do pavor. E assim fui crescendo, entre tombos, travessuras e ousadia. O tempo mudou meu rosto, mas não levou toda aquela rebeldia. Hoje, carrego no corpo as marcas de um menino que não se rendia. Metade das minhas cicatrizes não aparece diante do espelho.São lembranças de uma infância inquieta, de um coração sem paradeiro, de um garoto que enfrentava o mundo sem saber que o mundo, um dia, também o enfrentaria por inteiro. Agora sou homem, mas ainda existe um menino em mim. Um sobrevivente das próprias aventuras, alguém que aprendeu que a vida nem sempre é um caminho sem fim. Não preciso mais desafiar a noite pra provar que não tenho medo. Conheço os monstros que vivem nas sombras e aqueles que se escondem em segredo. Porque os anos me ensinaram que nem todo demônio tem chifres, nem toda assombração vem do além, e que existem feridas profundas que não se enxergam em ninguém. Mas, se me perguntarem quem fui, responderei sem hesitar: fui uma criança destemida, que nunca aprendeu a recuar. E, se me perguntarem quem sou, direi que ainda estou aqui, com metade das minhas cicatrizes contando a história de onde vim. E a outra metade me lembrando de tudo o que ainda há por vir. Algumas cicatrizes não são sinais de fraqueza, são as assinaturas do tempo na pele de quem viveu sem pedir licença ao medo. Weldeilton Policarpo de Deus. 12/10/2026
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