Weldeilton Policarpo de Deus @PolicarpodeDeus
Drama

O viúvo

Era um dia de muito dilúvio. A chuva desabava sobre os telhados, escorria pelas calçadas e transformava as ruas em rios sem destino. Foi então que eu vi lágrimas nos olhos do viúvo. Ninguém percebeu. Talvez porque, naquele dia, o céu chorasse mais alto do que os homens. Ele caminhava devagar, com os ombros curvados pelo peso de uma ausência que não cabia dentro do próprio corpo. A água corria pelo seu rosto, mas havia algo que a chuva não conseguia esconder. Era a saudade. Aquela saudade antiga, que não diminui com o tempo; apenas aprende a viver em silêncio. Os anos haviam passado. As fotografias haviam amarelecido. As flores sobre a lápide já tinham morrido muitas vezes. Mas o amor permanecia ali, respirando entre as ruínas da memória. O viúvo olhou para o céu como quem procura um rosto entre as nuvens. Talvez quisesse uma resposta. Talvez apenas desejasse ouvir, mais uma vez, a voz que o tempo levou. E enquanto o mundo corria apressado para se proteger da tempestade, ele permaneceu imóvel. Porque existem dores que não procuram abrigo. Existem amores que continuam vivos mesmo depois da morte. Então, pela primeira vez, ele sorriu. Um sorriso pequeno, quase invisível. Como quem finalmente compreende que a morte não levou tudo. Levou a presença, mas não levou o amor. Levou a voz, mas não levou as palavras. Levou os dias, mas não levou a eternidade que dois corações construíram juntos. E naquele instante, entre a chuva e o silêncio, o viúvo entendeu que não caminhava sozinho. Pois aqueles que amamos não desaparecem. Transformam-se em estrelas para as noites escuras, em coragem para os dias difíceis e em esperança quando a alma se cansa. A tempestade continuou caindo sobre o mundo. Mas dentro dele, depois de tantos anos, finalmente amanheceu. Escrito por, Weldeilton Policarpo de Deus

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