A cidade que nunca existiu
Dediquei grande parte da minha vida à busca de uma cidade que jamais existiu. Suas ruas eram construídas de memórias, suas janelas se abriam para antigos sonhos, e suas praças permaneciam iluminadas por sóis que nunca nasceram. Percorri caminhos marcados pela incerteza e pela esperança, guiado por mapas desenhados pela saudade. A cada horizonte alcançado, acreditava estar mais próximo de encontrá-la. Entretanto, a cidade sempre se afastava, como uma miragem distante, escapando com a mesma discrição com que certas ilusões se desfazem ao longo do tempo. Com o passar dos anos, compreendi sua verdadeira natureza. Ela não se encontrava além das montanhas, nem ocultava entre os anos perdidos. A cidade que eu buscava era composta por tudo aquilo que não aconteceu. Pelos amores que não se concretizaram. Pelas palavras que permaneceram por serem ditas. Pelos caminhos que abandonei antes de conhecer seu destino. Era um reino edificado sobre ausências, cuja singular beleza residia justamente no fato de jamais ter pertencido à realidade. Hoje, já não a procuro. Ainda assim, em algumas noites, quando a escuridão se estende sobre os telhados e o silêncio envolve o mundo, consigo vislumbrar suas luzes ao longe. Elas brilham como estrelas destinadas a existir apenas na distância, belas demais para serem alcançadas. E então sorrio. Porque algumas cidades existem apenas para habitar os sonhos e algumas mulheres, talvez, para admira-las sem jamais possuí-las. De. Weldeilton Policarpo de Deus
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