Um dia nenhum de nós estará mais aqui. Pensei isso hoje enquanto tomava uma sopa e observava as pessoas na padaria. Ao mesmo tempo que um medo me permeava pelo breve susto causado pela consciência da minha mortalidade, fui tomada por uma espécie de alívio. E acho que medo e alívio definem bem a minha idéia da não eternidade.
Pensar que sou mortal é a obviedade mais estranha que eu conheço.
Encontrei hoje uma amiga
E senti nossa amizade maior do que nos tempos em que o hoje eram todos os dias
O tempo no qual convivíamos
Ela agora é outra
Mais ela do que nunca.
Ao desconhecê-la, a reconheci
E a amei, como sempre
Estávamos mais fortes, por frágeis
Abertas e com limites
Não queria parar de conversar com ela,
a nova antiga
Descobrimos também afinidades,
Iguais às daquela época
Ousei até escrever, eu
Que hoje mesmo confessei a uma velha amiga: mudei e emudeci.
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Levo a vida a sério, mas tenho riso fácil e, como na infância, ainda rio inúmeras vezes da mesma piada.
Rio mesmo.
E considero uma qualidade poder reencontrar a mesma graça e experimentá-la como recente.
Brincar me salva.
De modo geral, sou tímida, mais dada à introspecção, mas sobrevivo de afetos. Como quando era criança e andava solta pela cidade que morava, no interior, a cumprimentar e conversar com a vizinhança que, cada qual a seu modo, compunham o que entendia ser eu.
Tenho um amor pelas pessoas do meu convívio que não expresso, feito ramos de uma raiz que é muda. Certa vez sonhei que deixava cair amor no chão para que as pessoas pegassem. Uma amiga disse que é orgulho. No sonho era como respeitar alguma lei anterior e independente de mim, o "deixar cair" era a minha atitude amorosa de desvincular-me da necessidade de ser reconhecida pelo meu ato.
Bom, talvez seja o orgulho todo vestido em belos trajes.
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O meu ritmo é aos poucos, pouco a pouco, Paula é pouco. Sou pouco. Também gosto da correria e agitação, mas o maior prazer está em parar e esperar toda a energia se reorganizar naquilo que me compõe mais, que é pouco. Em alguns momentos de muito é porque não estou bem, demoro a perceber, porque meu tempo é lento, e eu preciso ficar e ficar e ficar até paulatinamente germinar a possibilidade de consciência.
Às vezes não vem, mas quando vem...
sou pouco.
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Solidão, do verbo só lidar.
- Como tu sustentas a tua angústia?
- Resistência. Antes é preciso respeitar minha resistência. Ao reconhecer minha angústia, não me desfaço dela, permito que aja enquanto me oponho, mas sem derrubá-la por completo. E vou encontrando um lugar de não julgamento para o que surge desse atrito. Não me forço em resolver, por mais que vontade tenha. Deixo brotar o que for e escuto enquanto persisto.
Sustento a minha angústia tratando bem minha resistência.
Não a obedeço, nem a elimino. É nesse fio de tensão que permanecemos, com dificuldade e truculência, mas sem submissão. Fico doendo. Sinto-me mal, mas isto não me enfraquece, torna-me vulnerável e então me acolho. Cuido de mim. Envolvo-me em um casulo que não fecho, e pela fresta volto à vida. Converso, rio, danço, como, e então nasce o que me devolve harmonia, com a ausência de sentido e o silêncio do mundo. Até que eu force a ter sentido, até que o silêncio responda e que o não ser, seja.
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A partir de ontem tenho esse olhar.
O velho se transforma, agora apontando novos rumos. Fundem-se os tempos e não me perco, o "equilibrar-se" é que é constante. No mais tudo transita em busca de uma sempre nova organização que em seu âmago é caos.
Tenho tido como um prazer na quarentena, um prazer antigo que continua possível, colecionar palavras. Encontro uma nova e guardo escrita junto ao significado, já me mordendo da vontade de usá-la. Penso em fazer texto poesia só com palavras que conheci no mês passado. Que mais esta ideia não mofe, mas talvez sim, e tudo bem porque tenho tido muito em que me empenhar este ano. Mas o ponto do que quero falar agora não é sobre fazer poemas e textos com palavras, mas sobre como cada palavra já é em si toda poesia:
Per se vera (Por mais sério)
Per severa (Por grave)
Persevera (continua)
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Faço 35 anos hoje e comemoro a vida. Já me deixa feliz sentir que a vida vale independente das circunstâncias. Aprendi no corpo e não em livros que viver é um além do medo, um lugar no não seguro. Estive durante anos, que muito me ensinaram, isolada de mim, isolada da vida.
Enquanto pensava estar criando, estive retirando pedra por pedra. Não vi ninguém. Confiei cegamente. Perdi pessoas que já me foram caras. Se tudo acontecesse novamente agora, não teria vontade de fazer uma escolha semelhante a que fiz, e não me arrependo de nada.
Talvez de coisas que não disse eu me arrependo. Brigas que não tive. Posições que não sustentei. Um grito ou outro, sufocado, pois não dei. Acumulei dores, machuquei por dentro. Mesmo. Não falo de alma ou coisas do gênero, falo de nervos, músculos, vértebras... Estive estagnada. Não percebi que andava em círculos. Dei valor demais ao que precisava ter um lugar apenas.
Mas já não respeito os acordos que não fiz.
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