O cigarro é meu amor abusivo
Não que já não tenha vivido outros amores abusivos. Mas esse... Ah! Esse esteve comigo por longos anos. Numa trajetória marcada por altos e baixos, ele sempre esteve lá, em uma presença sutil mas inabalável, me fazendo companhia e preenchendo qualquer espaço. O cigarro me visitava, na euforia ou no lamento, na certeza enchendo o peito, ou na dúvida e desassossego, acolhendo qualquer sentimento, como um afago. Sua presença era desejada, ele compreendia meu jeito tímido e minha dificuldade em iniciar algum diálogo, aceitava que eu ficasse calada quando eu queria ficar, me dava a mão quando eu não sabia o que fazer com as minhas perdidas no ar, aquietava minha mente quando os pensamentos frenéticos insistiam em atravessar, me ajudava até a respirar pausadamente, de um trago a outro, no tempo certo, sem me afobar, sentindo o corpo relaxar. Acontece que depois de um bom tempo, sua presença começou a pesar, no peito, no corpo, e no ar. Ultrapassando o limite do meu desejo, passou a ocupar. Ocupar todo espaço que eu tinha pra estar, ocupando qualquer brecha de tempo pra pausar, ele sempre estava lá, em todo lugar, amarrando minha mão e tapando minha boca pra não questionar, sobre a necessidade dele ficar, nada mais tinha o mesmo cheiro, gosto, nem razão se ele não estivesse lá. Em uma tomada de fôlego fui capaz de me desvencilhar, não totalmente porque as feridas das amarras continuam a lembrar, o que meu amor abusivo, por tanto tempo, me impediu de enxergar... as angústias e dores que ele ajudava a camuflar, e hoje, involuntariamente estou tendo que lidar, em uma oscilação entre o pesar e o alívio de me libertar.
Marina Coimbra
Caralho!!! Incrível!