Guilherme @Panela_depressao
Vida

À STELLA DO PATROCÍNIO

Em resposta à: "Estar internada é ficar todo dia presa. Eu não posso sair, não deixam eu passar pelo portão. Maria do Socorro não deixa eu passar pelo portão. Seu Nelson também não deixa eu passar lá no portão. Eu estou aqui há vinte e cinco anos ou mais…" Olá Stella, como você vai? Me chamo Guilherme e falo do outro lado da muralha, para advertir: aqui também estamos cativos, muito embora possamos transpor algumas barreiras a mais. Ainda assim, presos no tempo e na rotina, comer, dormir, fumar…E tudo igual… aqui o tempo passa da mesma forma, sempre uma coisa depois da outra. Você, sentindo-se presa, vê a liberdade porque há um muro, que coloca a libertação no horizonte. Deste lado aqui o portão aparece fechado… para vocês, e então já não temos mais do que nos livrar. Aqui tudo é aberto e essa é a nossa prisão. Ser, não-ser, ser-para depois deixar-de-ser… como o vento que é água quando esfria e congela quando faz frio. Eu gostaria de poder te dar um abraço, pois sinto em suas palavras a voz do que em mim quer falar e eu não quis. Eu aprendi a falar e, falando, como aprendi, disse tudo errado. Eu sou feito de linguagem. Todos somos. Então eu sou isso: a linguagem errada que me ensinaram sem eu pedir. Um abraço… um abraço talvez dissesse mais, porém, barreiras físicas inviabilizam o encontro. Me pego pensando se é lícito usar a caneta para abraçar. Não. Acho que não. Talvez seja até rude. Me perdoe por isso. De qualquer sorte, siga escrevendo. Talvez a violência implícita das suas palavras - porque sim, as palavras ferem… na "língua", o ser… - quebre a casca do erro linguístico que fizeram de mim. Deste insistente interlocutor, Um abraço (sem braços, só tinta... e café). Qualquer dia, de algum outubro, de um ano qualquer.

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