I @Oanonimato
Sociedade

Sutileza de aço

O ódio não usa capuz, traja-se de pai, de irmão, de pastor na tv, de juiz que torce a lei com a mão. Amar não pede licença, não cabe em laudo, em portaria, mas a sociedade insiste em podar a primavera que floresce onde há vida. Há quem diga “é contra a natureza” — como se a natureza não fosse o beijo que rompe a cerca, o corpo que escolhe o corpo, a alma que não se envergonha. Enquanto uns rezam por cura, outros choram na calçada, expulsos do próprio quarto, marcados por faca e palavra. Mas o amor persiste, teimoso, desobediente ao decreto: cada afeto é um ato político, cada abraço, um pequeno afeto que desarma o fuzil do preconceito. Homofobia é medo do espelho, pavor de ver no outro o mesmo desejo que habita — e que o silêncio torna outro. Não há Deus que condene o afeto, nem ciência que negue o fato: ser livre é a única norma, o resto é teatro, é contrato. E enquanto houver um só corpo ferido pela intolerância, haverá verso, grito, rua, e a poesia como resistência.

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