Sobra uma borboleta no peito,
pousando agora quando deito.
Toca um cinza claro tão brilhante,
que se fecho os olhos é distante...
desse sonho tão bonito que a luz atira,
que tem vida do sol, se perceber.
o que o corpo entrega esse sono retira
nem para dormir e nem para receber.
De tão pesado, o chão vem converter...
a flor da preguiça.
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Na casa...
há uma folha e um lápis, sem borracha,
se acha algo para pôr sobre, relaxa,
na sua caixa essa dor se encaixa.
Vai, vai pintar o nada, vira e abaixa...
veja se embaixo não tem bolacha.
Se vir o vazio, descreva uma taxa,
esculacha a fome e ela desengraxa.
Tua estante nem tem uma faixa,
agacha a madeira, te olha e te rebaixa,
é mudo, surdo, cara cabisbaixa...
calma
é a língua do mundo no canto da sala,
a vala se cala na voz e ela rala...
cíclica
escrita na fita que o papel cita...
ser o universo de escrita que é você.
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Deixe uma rosa descansar perto da janela
e o trem passará por tantos campos
que será difícil saber o lugar dela.
E nem questione por onde foi sonhar,
porque a memória vê a luz entrar
e cumprimentar essa saudade...
que é lamentar a tarde e a viagem
de quererem durar uma vida inteira...
mas te doeria mais se fosse eterna...
e não verdadeira.
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A cidade irá receber
um renomado cientista,
não aquele que cria
e sim aquele que revista.
Será que vem o telescópio?
E vai ver a lua no caderno.
Desvendar a bola de cristal?
Esquecer o tempo moderno.
Mas o pesquisador não pesquisa,
só se fixa como um florista,
e essa rosa se ele bem conhece...
serve de linha, na memória tece
o pano da mesa do jantar,
e a cozinha do jardim vem cantar
que o cientista é romancista...
reinventou o bolo das lembranças
...e este ainda tem gosto de saudade.
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Um chão tão sujo...
somente fere o passo calmo
...se o pé não for de vidro.
Nem acalma a dor,
caso apenas uma muda nasça
...no amor que te espera
para grudar na terra...
e contra a chuva, varrer a água,
juntá-la para dar cor!
Ó, Cruel Jardineiro...
Deixe a rosa crescer na lama
...e sentirá seu cheiro.
Nascerá ali grama,
ainda assim verá aquela flor...
mais vermelha que seu sangue.
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Quando a água cai do céu
uma nuvem chora existir.
Alguém com medo da chuva
se protege da tristeza e
acha uma casa.
A casa é muito pequena
mas nela cabe a Solidão.
Não um parente próximo,
o horizonte esfria a mão
que pede casamento.
E uma pessoa vai viver lá...
até a lágrima do mundo morrer.
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O sangue do meu coração
boia na minha mão
e com ele eu escrevo:
"Afunda na pele a alma
com a pálida calma
e ela dirá quem sou."
Mancha os olhos do escuro
e das palavras, um furo
joga luz sobre o vermelho.
Traço no abraço do mundo
intangível sono profundo
e em meu braço terrível paz.
Com meu corpo vendado ao céu,
a dor da noite é um branco véu,
e o amor do silêncio, meu poema infinito...
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