Nauak @NauakZo
Amor

Promessa Entre Concreto e Céu

Te prometo, de dedinho, que farei poesia até das ausências, farei amor até nas palavras, inventarei tuas mãos quando as minhas estiverem vazias, e construirei versos para preencher as lacunas onde teu corpo não couber. Prometo cantar teu nome baixinho no meio da rua lotada, nas escadarias do metrô, nas vitrines embaçadas da madrugada, como quem reza, como quem se perde. Prometo fazer poesia nos dias de chuva brava, nos ônibus atrasados, nas filas sem paciência, nos beijos que a cidade esqueceu de dar, nas esquinas onde todo mundo passa sem olhar. Vou colher as palavras do chão sujo, vou pendurar promessas nos postes, vou rabiscar tua ausência nos muros, vou cuspir amor em meio ao pó e à pressa, vou tatuar teu nome nas ruas que ainda quero caminhar contigo. Mas me promete, amor, com a mesma urgência, com a mesma loucura, com a mesma fome que me faz te escrever: não me deixa sozinho nessa busca. Não deixa que minha fé em ti se desgaste como propaganda velha arrancada pelo vento, não deixa que meu coração vire enfeite quebrado numa vitrine esquecida da cidade. Promete, de dedinho também, que serás cais para o meu barco cansado, asas para a minha palavra inquieta, casa para o meu peito desabitado. Promete que minha loucura de amor não será só eco, não será só buzina longe na noite, não será só sonho de ponte quebrada. Que meu grito encontrará tua resposta, que meu poema encontrará teu peito aberto, que minha espera não será sepultada no asfalto quente. Promete que nossas saudades serão pontes, não muros. Que nossos desencontros serão poesia, não escuridão. Que nossos corpos cansados ainda terão força para se reconhecer mesmo depois das guerras diárias. Promete, amor, de dedinho, que esse amor — feito de cacos e constelações, feito de fumaça e manhãs, feito de falta e de fé — não será amor perdido. Será revolução. Será abrigo. Será nós.

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