Nauak @NauakZo
Amor

Eu, Casa

às vezes, penso à toa como quando senti amor — não de fora, mas de mim. foi bonito. não teve esforço. só teve eu, quieto, inteiro, sentindo. eu, por mim. eu, em mim. e isso bastava. porque amar a si mesmo é coisa que ninguém ensina, só se aprende no escuro, quando todo mundo vai embora e sobra só você com seus cacos e suas mãos aprendendo a colar. e quando o seu amor veio, tentando ser flor, era só um eco abafado do jardim que eu já tinha regado. era bonito também, mas faltava raiz. faltava chuva. faltava saber que amor não é pra preencher buraco — é pra transbordar o que já é cheio. não é desprezo, nem orgulho, nem trauma. é só que nenhum amor me viu com o tempo que leva pra se ver um pôr do sol sem pressa, sem tirar foto, sem querer eternizar — só vivendo. ninguém me tocou sem querer me consertar. ninguém ficou quando o silêncio era tudo o que eu tinha. e eu já gritei sem som, já pedi colo em silêncio, já dei tudo de mim pra quem só veio por metade. o meu amor me conhece. me esperou. me ouviu. me fez chá quente nos dias frios. me abraçou sem prometer nada. ficou. mesmo quando eu não fui fácil. O amor que chega tarde não encontra mais espaço onde já existia um lar. não é falta de querer — é que eu já fui casa. já fui lareira acesa. já fui teto que não desaba. e agora, não aceito mais ser abrigo provisório. não aceito ser entrelinha. não aceito ser espera. ou vem inteiro, ou me deixa com a paz que eu aprendi a cultivar sozinho.

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