Palavra é Luta, Não Licença
Eles pedem calma. Pedem que a gente fale baixo, que agradeça o pouco, que sorria enquanto sangra, que aceite a esmola como se fosse herança, que diga "amém" pra um sistema que ora contra nós. Mas a gente nasceu pra expandir, pra escrever dor em rebelião, pra fazer da palavra cicatriz viva. Não é birra, é trauma. É o medo de sair e não voltar, o nó na garganta de quem não pode errar — porque um erro nosso é sentença, e o deles, estatística. Dizem "merecimento", mas nunca viram a criança que cresce com fome e ainda sonha com futuro. Nunca ouviram a mãe que troca a própria comida por um litro de leite. "Se esforça que dá", dizem. Mas como, se o jogo já começa roubado? Se uns têm herança e outros, dívidas? Se uns nascem em berço e outros no asfalto quente, com a polícia de despertador e o preconceito de vizinho? Não é vitimismo. É vivência. É quem sangra onde você nem imagina. É o grito de quem já cansou de sussurrar. Nosso poema é denúncia. É flor com espinho. É lembrança de quem tombou. Dizem: "vocês querem dividir o país." Não. A gente quer costurar o que foi rasgado. Quer justiça, não favor. Quer viver — sem pedir desculpa por existir. Tu que chama de “militância forçada” nunca teve que esconder o próprio amor. E se nossa dor te incomoda, se nosso grito atrapalha teu sono, que bom. É sinal de que ainda estamos vivos. Onde negam nossa história, a gente vira fogo. Onde silenciam nossa voz, a gente vira tambor. Nosso corpo é manifesto. Nossa poesia é faca e flor, ponte e martelo, memória e construção. E que ninguém duvide: não estamos sós. Somos muitos, plurais, furiosos e belos. Porque viver não é privilégio. É direito. E se pra viver é preciso romper muros, que se preparem: onde tua indiferença fere, nossa palavra cresce e interfere.
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