Tarde
Ela dizia que era fase, que passava com o tempo, que aquela menina calada era só drama, só vento. Não viu os pedidos mudos escondidos no olhar, nem o “tá tudo bem” forçado que implorava pra escutar. Sempre quis consertar tudo, arrumar como arruma a casa, mas filha não é objeto que se cola quando racha. Quando percebeu o silêncio pesando mais que o normal, tentou virar colo, abrigo, tentou ser porto e quintal. Mas a menina já tinha crescido sozinha por dentro do quarto, aprendeu a guardar o mundo num coração apertado. Agora a mãe bate na porta com cuidado, quase medo, querendo voltar no tempo pra ouvir o primeiro segredo. Ela tenta, ela insiste, jura que quer entender. Mas às vezes o amor chega quando a dor já fez morada e aprendeu a sobreviver. E mesmo tarde, mesmo torto, mesmo cheio de falha e culpa, a mãe ainda estende a mão — torcendo pra que a filha, um dia, ainda escolha segurá-la.
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