Última Esperança
Talvez eu me arrependa para sempre; dói demais. Em qualquer momento eu deixava de pensar em você — até nas pequenas coisas: lavando a louça num domingo à noite, imaginando nós dois planejando a semana, quem deixaria as crianças na escola, onde passaríamos as férias de inverno. Dilacerou meu peito. Sei que lhe dei um sabre sobre o peito e senti esse mesmo sabre perfurar todos os sonhos e sentimentos que cultivei. Sei também que talvez tudo tenha sido loucura da minha cabeça, e ainda assim dói: como se algo em mim tivesse se esvaído. Meu coração me castiga a cada dia nesta casa vazia. Você dizia que era grudenta, que amava demais — então por que sinto que raramente me demonstrou isso? Houve momentos em que fui um idiota; você, por sua vez, se esvaiu como vento, sem adereços. Escrevi dezenas de poesias com minha alma e, mesmo assim, nunca foi suficiente. No fim para você, não bastei á ser uma criança perdida, que deveria ser levada de volta à mão dos pais. Às vezes me pego pensando se, entre seus olhares e ausências, houve um instante em que quiseste atravessar o meu silêncio — se alguma vez quiseste saber como eu vivia por dentro, entender cada pedaço do meu medo e da minha esperança. Diga-me, então: o que sente? Ficaria comigo quando o mundo brandir espadas contra mim? Seria minha se eu não estivesse bem? Cuidaria de mim quando eu me esvaísse em dor? Por mais que pareça infantil, eu faria tudo isso por você. Talvez eu esteja errado, mas quando você disse que sempre se colocaria acima de tudo, eu respondi que te amaria acima de tudo — e você não respondeu.
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