O mínimo pra viver
Fico vendo essas meninas magras e desejo muito ser como elas. Olho um pão quentinho e perco a vontade. Como o pão. Como mais um. Mais dois. Como a culpa junto. Me como de culpa por inteira. Como tanta culpa que fico cheia e não como mais nada. Uma hora. Duas horas. Dez horas. E eu ainda estou cheia de culpa. Deito, cansada, tonta, girando igual em festinha junina, na minha infância quando eu não ligava pra minha barriga. Vou pensando, na vida, tudo tonta, tonto, ainda cheia de culpa. Penso na vida, durmo, desmaio, a fome da vida. Não tento mais comer, é nojento. Mastigar bicho, batata, tanta gente botou a mão. O prato na minha frente parece uma obra abstrata, um vômito, algo estranho, nunca vi, parece qualquer coisa, menos comida. Não como de novo. É tão fácil ficar sem comer, difícil mesmo é começar. O pior já passou, a gente pensa. E aí desmaia de novo porque essa coisa não tem fim. É aquela coisa, sempre. Come muito, se enche de culpa, não come mais. Emagreço dois ou três quilos numa dessa, me sinto magra, bonita, olho no espelho e não vejo. Todo mundo vê, menos eu. Mas dizem que estou bonita, antes eu estava muito gordinha, então devo estar melhor. Mas não é suficiente, devo continuar? Não vai me custar nada pular uma refeição ou outra. Aguento a tontura, eu vou acostumando. Tonteei e cai. Pior é que talvez seja pra sempre da próxima vez.
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