É @Mahbolinho
Vida

A decadência da mulher que nunca foi alguém

Hoje atingi o ápice da loucura e não pude, nem por um segundo, cogitar voltar à sanidade. Sanidade é olhar pra dentro, é pensar, questionar, viver, e eu prefiro a loucura. Prefiro fingir que não vivo, que não existo e que posso me encolher tanto a ponto do meu estômago me autodigerir. Eu não sou inteira, sou de tantas partes e tantos lugares que não pertenço a mim, eu sou de todo mundo, e tenho sido tantas eu's, tantas utilidades e tantos alguéns que já não sobra nada de mim mesma. Eu fui embora e o resto de mim ficou aqui. Eu fiquei aqui e fui embora. Nunca fui tantas em uma noite só, e amanhã eu olhei o teto e me vi na branquitude imensa e tão rasa. Eu sou rasa. Nada me perfura ou boia, nada permanece ou navega, eu sou rasa e ninguém pode perfurar o concreto do meu teto. Não sou cronista, contista, feminista, me perdi nos rótulos já tem tanto tempo que sem rótulo eu não sei de nada de mim. Abri o Instagram, o Facebook e o Twitter e mostrei a minha nudez, o meu eu, a forma humana e tão crua. Esperei o "puta" e "vagabunda" que nunca veio, apareceu, em vez disso, uns "gostosa" e "mostra a bucetinha"; no meu chat, coisas que eu não queria ver, igual aquele cara lá, daquela vez, que não consigo nem pronunciar o nome estranho. Era indiano, ou muçulmano, eu não sei. Tem diferença de assédio dependendo da nacionalidade? Eu esperava sem saber o que esperar. Queria que os elogios, os xingamentos, atenção, fosse o que fosse, preenchessem o buraco tão grande que pesa no meu peito, mas nem mostrar o seio adiantou. Eu tiro a roupa, pego o espelho e me arreganho pra ver se encontro alguma coisa além do meu cadáver ainda vivo. Eu me esfrego, me possuo, experimento ser minha por pelo menos um momento, e então não sinto nada. É assim me(ter)? Eu sou vazia a ponto de não me encher como estoque de porra? Eu ando sem caminhar e vou rolando pela terra. A física me carrega, a Terra me embala, noturna, taciturna, quieta, mas a cidade não para. Eu não paro. Abro os olhos e acordo uma cidade inteira. (crônica incompleta)

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