E por que eu ficaria?
Para ver o mesmo lago secando?
E pra que eu serviria?
O rio seca, e você perde a fome
Dessa vez os arquivos são intangíveis
Não tenho mais olhos para criar
E onde eu me aqueceria
Se acordo com frio todos os dias?
E no que eu te acrescentaria
Se toda a vontade será dissolvida?
E pra que eu ficaria
Se logo você sairia?
Estou saindo agora
Antes que a lógica chegue
Deixarei o lago pela metade
Pelo menos desta vez.
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Não tinha um respiro sequer ali
Só um inspiro em si mesmo
Os heróis só ficaram no gibi
Era só um degrau de escada vazio
Pela manhã e com café
Já é noite novamente
Por dentro e por fora
Mas, aguenta firme
Estamos salvando a nós mesmos
Não existe capa para anônimos
E é só a mente que sabe voar
Um herói por ele mesmo
Um herói salvador de si
Herói de escada, do escuro e da liberdade.
Beije-se todos os dias
Herói de si
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Não há nada mais repetido que uma reconexão
Nada é mais exato que reencontros
Tudo deixa de ser uma surpresa
E vira um passado continuado
A reconexão asfixia algo novo
O novo nem sequer será um talvez
Reatar ciclos é renunciar oportunidades.
O novo consiste em encontros e partidas
Já o velho, em idas e vindas.
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Não dá pra tirar algo de alguém que já perdeu tudo.
Minha caminhada é longa, feita de glória e derrota.
Fiz do desapego um aliado, e da solidão uma amante fiel.
Eu realmente estabilizo perdas.
Eu tô pronto pra perder.
Eu estou sempre pronto pra silenciar o adeus.
Na verdade, ele nunca fez tanto barulho assim.
Estou sempre neutro para encontros e desencontros.
Não sei colorir essas coisas.
Eu realmente estou pronto para qualquer adeus, mesmo que eu não o espere.
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O que valeu até aqui?
Você não cumpriu o amanhã
E ele nem vai chegar
Sua agenda ficou incompleta
Você não verá a noite
O que tens é o solo vazio
O sustento obrigatório da física
O que valeu até aqui?
Imagine que sua passagem foi incompleta
Como passou por aqui?
Imagine que possa se ver
E não possa se tocar
Lembre-se do vazio até aqui
Veja que apenas o vazio permanece
Ele foi o algoz mais presente
E o último a ir embora
Ele não chamará por socorro
Ele só entende sobre silêncio e apatia
Ele é a presença invisível de todos esses anos
Ele foi indiferente nas festas e lutos
Nas dores e júbilos
O barro agora se tornou abrigo para vocês
Só tem você e ele aqui
Até que a morte os separe.
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Vejo você aqui
Comigo do outro lado
Vejo o mundo de águas à frente
O mar ainda é grande para nós
Vejo seu mundo em grilhões
Em um lugar que eu já estive
Vejo um amor nascer entre mares proibidos
Vejo você sentir o que não havia escolhido
Vamos sumir aqui
Tem mares de vida depois da grade
Vejo as correntes de asfixia
Assim como minhas novas âncoras amor
Vamos cruzar essas paredes
Nadar em águas proibidas
Vejo seus desejos ardendo sob grades
Para um grito de socorro
Já terei um barco pronto
Vamos sumir daqui
Prefiro águas proibidas
Deixe com que suas correntes se desfaçam no mar
Pegue em minhas mãos
Respire depois cela
Mergulhe comigo em nossas águas proibidas
Deixe com que suas correntes se desfaçam no mar
E que minha âncora proibida
Se torne um cais pra ti
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Preciso de algo
Preciso ir a um lugar que sempre vou
Preciso sentir o que sempre quis
Só assim, talvez, não vá mais a esse lugar
Preciso ir enquanto nada acontece
Estou entorpecido pelo tédio
Estou sendo consumido por uma fenda
Dá-me a passagem
E que seja generosa
Deixe-me cruzar esse plano
Dá-me uns minutos, umas horas de êxtase
Deixe-me sair dessa prisão
Liberta-me dessa realidade insípida
Liberta-me desse lastro cinzento
Perdoa-me pela ingratidão
Dá-me um pouco mais de anestesia
Até sentir o que sempre quis
Permita-me apreciar minha ilusão de estimação
Permita-me curtir o meu vazio
Até sentir o que nunca senti
Até viver o inédito.
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Avise aos que se foram
Que a ferrugem virou ouro
Avise que há algo tangível aqui
Avise que os poços transbordaram
E que a pouca água que ofereci
Já não existe mais
Avise que ainda estou aqui sentado
Mas que estou de olhos vendados
E não vejo mais quem se foi
Avise que o lugar é o mesmo
Mas que o poço está lacrado
Avise que a ferrugem virou ouro
Avise que o poço encheu
E por isso saí dele
Avise que não preciso mais da corda
Que não existe mais a pouca água
Avise, somente, avise
E não volte mais também.
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Vocês ainda estão aqui
Eu também estou aqui, por hoje
Mesmo que já tenha saído
Deixe-me pular aí
Eu sei que não tem escadas
A queda é dolorasa daqui de cima
Não sou um anjo
Sei que posso estar aí
Mesmo que seja pelos seus interesses
Eu trouxe o meu ingresso
Posso ficar aqui?
Não se preocupem!
Eu não irei demorar
Vocês são os mesmos de ontem
De anos atrás
Sempre com menos um
Eu não sou diferente de vocês
Quando acordo um demônio
O demônio que nunca morreu
Eu não sou diferente
Quando expulso um anjo
Eu não sou diferente
Quando procuro vocês embaixo da lua entorpecida
Eu não sou diferente
Quando sei onde encontrá-los
Anjos nunca viriam aqui
Com ou sem o ingresso.
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Jogo pérolas no abismo
Pérolas que eu nem as usaria pra sempre
Estou cansado de ver a neblina
Você sempre some em meio à névoa densa
Estou deixando quem me segura
E me agarrando em cabos escorregadios
Eu nunca subo para fazê-los terminarem
Você sempre me cobre com dunas
E tenta subir mais um pouco
Estou aqui, esperando
Esperando você derrubar a fortaleza
E engolir os entulhos
Dê mais uma volta
Veja o que pode encontrar
Encontre o vazio que procura
Então, volte daí
Volte e me enxergue em meio à névoa
Volte antes que me esqueça
Volte e tire os entulhos de cima de mim
Volte e caia no mesmo vazio que antes procurava
Volte e seja as pérolas do início
Volte antes que eu suma na neblina
Volte e teremos pouco tempo até virarmos um vazio
Quero ser o motivo do seu vazio antes de sumir
Volte antes que a gente se perca na neblina.
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