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Marcus

@MPSilva · desde 2022

Canetas da alma.✒️

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Lago enxuto

E por que eu ficaria? Para ver o mesmo lago secando? E pra que eu serviria? O rio seca, e você perde a fome Dessa vez os arquivos são intangíveis Não tenho mais olhos para criar E onde eu me aqueceria Se acordo com frio todos os dias? E no que eu te acrescentaria Se toda a vontade será dissolvida? E pra que eu ficaria Se logo você sairia? Estou saindo agora Antes que a lógica chegue Deixarei o lago pela metade Pelo menos desta vez.

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Auto-estima

Herói de si

Não tinha um respiro sequer ali Só um inspiro em si mesmo Os heróis só ficaram no gibi Era só um degrau de escada vazio Pela manhã e com café Já é noite novamente Por dentro e por fora Mas, aguenta firme Estamos salvando a nós mesmos Não existe capa para anônimos E é só a mente que sabe voar Um herói por ele mesmo Um herói salvador de si Herói de escada, do escuro e da liberdade. Beije-se todos os dias Herói de si

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Encontros e idas

Não há nada mais repetido que uma reconexão Nada é mais exato que reencontros Tudo deixa de ser uma surpresa E vira um passado continuado A reconexão asfixia algo novo O novo nem sequer será um talvez Reatar ciclos é renunciar oportunidades. O novo consiste em encontros e partidas Já o velho, em idas e vindas.

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Drama

Aliado vazio

Não dá pra tirar algo de alguém que já perdeu tudo. Minha caminhada é longa, feita de glória e derrota. Fiz do desapego um aliado, e da solidão uma amante fiel. Eu realmente estabilizo perdas. Eu tô pronto pra perder. Eu estou sempre pronto pra silenciar o adeus. Na verdade, ele nunca fez tanto barulho assim. Estou sempre neutro para encontros e desencontros. Não sei colorir essas coisas. Eu realmente estou pronto para qualquer adeus, mesmo que eu não o espere.

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Algoz

O que valeu até aqui? Você não cumpriu o amanhã E ele nem vai chegar Sua agenda ficou incompleta Você não verá a noite O que tens é o solo vazio O sustento obrigatório da física O que valeu até aqui? Imagine que sua passagem foi incompleta Como passou por aqui? Imagine que possa se ver E não possa se tocar Lembre-se do vazio até aqui Veja que apenas o vazio permanece Ele foi o algoz mais presente E o último a ir embora Ele não chamará por socorro Ele só entende sobre silêncio e apatia Ele é a presença invisível de todos esses anos Ele foi indiferente nas festas e lutos Nas dores e júbilos O barro agora se tornou abrigo para vocês Só tem você e ele aqui Até que a morte os separe.

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Drama

Cais proibido

Vejo você aqui Comigo do outro lado Vejo o mundo de águas à frente O mar ainda é grande para nós Vejo seu mundo em grilhões Em um lugar que eu já estive Vejo um amor nascer entre mares proibidos Vejo você sentir o que não havia escolhido Vamos sumir aqui Tem mares de vida depois da grade Vejo as correntes de asfixia Assim como minhas novas âncoras amor Vamos cruzar essas paredes Nadar em águas proibidas Vejo seus desejos ardendo sob grades Para um grito de socorro Já terei um barco pronto Vamos sumir daqui Prefiro águas proibidas Deixe com que suas correntes se desfaçam no mar Pegue em minhas mãos Respire depois cela Mergulhe comigo em nossas águas proibidas Deixe com que suas correntes se desfaçam no mar E que minha âncora proibida Se torne um cais pra ti

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Fenda ociosa

Preciso de algo Preciso ir a um lugar que sempre vou Preciso sentir o que sempre quis Só assim, talvez, não vá mais a esse lugar Preciso ir enquanto nada acontece Estou entorpecido pelo tédio Estou sendo consumido por uma fenda Dá-me a passagem E que seja generosa Deixe-me cruzar esse plano Dá-me uns minutos, umas horas de êxtase Deixe-me sair dessa prisão Liberta-me dessa realidade insípida Liberta-me desse lastro cinzento Perdoa-me pela ingratidão Dá-me um pouco mais de anestesia Até sentir o que sempre quis Permita-me apreciar minha ilusão de estimação Permita-me curtir o meu vazio Até sentir o que nunca senti Até viver o inédito.

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Drama

Olhos vendados

Avise aos que se foram Que a ferrugem virou ouro Avise que há algo tangível aqui Avise que os poços transbordaram E que a pouca água que ofereci Já não existe mais Avise que ainda estou aqui sentado Mas que estou de olhos vendados E não vejo mais quem se foi Avise que o lugar é o mesmo Mas que o poço está lacrado Avise que a ferrugem virou ouro Avise que o poço encheu E por isso saí dele Avise que não preciso mais da corda Que não existe mais a pouca água Avise, somente, avise E não volte mais também.

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Drama

Demônios do poço

Vocês ainda estão aqui Eu também estou aqui, por hoje Mesmo que já tenha saído Deixe-me pular aí Eu sei que não tem escadas A queda é dolorasa daqui de cima Não sou um anjo Sei que posso estar aí Mesmo que seja pelos seus interesses Eu trouxe o meu ingresso Posso ficar aqui? Não se preocupem! Eu não irei demorar Vocês são os mesmos de ontem De anos atrás Sempre com menos um Eu não sou diferente de vocês Quando acordo um demônio O demônio que nunca morreu Eu não sou diferente Quando expulso um anjo Eu não sou diferente Quando procuro vocês embaixo da lua entorpecida Eu não sou diferente Quando sei onde encontrá-los Anjos nunca viriam aqui Com ou sem o ingresso.

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Drama

Neblina

Jogo pérolas no abismo Pérolas que eu nem as usaria pra sempre Estou cansado de ver a neblina Você sempre some em meio à névoa densa Estou deixando quem me segura E me agarrando em cabos escorregadios Eu nunca subo para fazê-los terminarem Você sempre me cobre com dunas E tenta subir mais um pouco Estou aqui, esperando Esperando você derrubar a fortaleza E engolir os entulhos Dê mais uma volta Veja o que pode encontrar Encontre o vazio que procura Então, volte daí Volte e me enxergue em meio à névoa Volte antes que me esqueça Volte e tire os entulhos de cima de mim Volte e caia no mesmo vazio que antes procurava Volte e seja as pérolas do início Volte antes que eu suma na neblina Volte e teremos pouco tempo até virarmos um vazio Quero ser o motivo do seu vazio antes de sumir Volte antes que a gente se perca na neblina.

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