Primeiro Rito
No escuro. No chão. No osso. Eu chamo o bicho. Eu chamo o bicho. Eu chamo o bicho que mora na minha carne. Vem. Sobe. Rasga. Mostra o dente. Eu bato no peito. Eu roço o dente. Eu deixo a garganta abrir como fenda antiga. O bicho sobe. O bicho sobe pela minha espinha. Pelo meu medo. Pelo meu sangue quente. Rosna. Cava. Respira em mim. Eu entrego meu corpo ao chão. Eu ofereço minha dor ao fogo. Eu abro as mãos e deixo cair aquilo que sobrou de humano. “Leva.” “Come.” “Quebra.” “Faz do meu osso teu altar.” O bicho me encontra. Olho no olho. Fome na fome. Sombra na sombra. Eu mordo primeiro. Ele morde depois. Nós viramos a mesma boca. Sangue no dente. Sangue no chão. Sangue no nome. Eu digo o rito: “O que eu caço, eu sou.” E repito. Até a voz falhar. Até a língua pesar. Até a pele esquecer seu próprio nome. O bicho se curva. Eu me curvo. Os dois quebram juntos. No mesmo som. Na mesma respiração. E quando o fogo apaga, e o chão esfria, eu olho para o que resta: Carne. Sombra. Eu. E o rito termina. Mas o bicho fica.
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