Amor

O teu contorno

Quando o amor era novo, era um vidro sem trinca, uma folha sem mancha, uma cor que não desbota. ​Aí veio o tempo, com seu sapato pesado, tropeçando na pedra da nossa dor cega. E os teus passos tortos, tuas manias antigas, teu jeito teimoso de fechar as portas, foram me tirando a paciência, foram me tirando do tom. ​Quantas vezes achei que o nó da garganta era o fim da estrada? Quantas vezes o teu barulho pareceu um abismo entre nós? ​Mas o tempo, esse mesmo que amassa o papel, ensinou a pousar o olhar. Aprendi a calar no teu susto, a desviar do teu espinho sem soltar a tua mão. ​Superar não foi apagar o defeito. Foi olhar para a tua imperfeição e ver nela o teu contorno. ​E hoje, no silêncio comprido da casa, quando você não está, a paz é uma coisa fria. A casa fica certinha demais, muda demais, sem vida. ​E me pego querendo aquela tua mania que me enlouquecia. A bagunça da tua pressa, o teu teimar sem razão, o rastro do teu caos no meu dia. ​Descobri, meu amor, que até as tuas falhas eram a música do nosso ninho. E que a saudade mais doída não é da tua perfeição fictícia, mas de cada detalhe teu que antes me tirava do sério e hoje me faz tanta falta.

Comentários · 1

  1. Rafaelinho

    Texto muito sensível, colega. Compreendi na pele o sentimento, não como uma nova visão, mas uma perspectiva nova acerca do que eu vivi.