Amor

Isto é o Céu ou inferno

Que estranho mal em mim fez morada, Que quanto mais deseja, mais se perde; Busca no amor a alma repousada, E em cada afeto nova dor lhe herde. Cuidei achar em peito alheio abrigo, Por não saber valer-me de mim mesmo; Mas quanto mais me entrego ao que persigo, Mais entro em mar profundo, escuro e lesmo. Vi muitas vezes a esperança acesa Brilhar qual sol nas águas da ventura, Mas logo a sombra, em sua natureza, Cobriu de medo a antiga formosura. Ah coração, por que tão mal governas Esse desejo inquieto e descontente? Se amas, temes; se foges, te condenas; Se esperas cura sangras lentamente. E assim prossigo, entre querer e medo, Preso ao que fere e ao que não alcanço; Pois mesmo roto, este cansado enredo Ainda faz meu pobre peito manso. Que o amor não mata súbito o vivente, Antes o deixa, em lágrimas, cativo: Tira-lhe a paz, o sono e o juízo da mente, Mas guarda-lhe o sofrer para mantê-lo vivo.

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