Vida

Diante do espelho

Diante do espelho, detém-se não por vaidade, Mas por não mais reconhecer o vulto que o encara. Outrora tão certo de seus próprios desígnios, Hoje, espectador de suas decisões mais torpes. Após tanto desejar, tanto invocar em silêncio, Tecer intenções como quem borda feitiço, Quando enfim lhe roça o êxito os dedos trêmulos, É ele quem o desfaz como criança cruel com o próprio brinquedo. Brinca com afetos alheios como quem nada possui, Declara-se presente, quando nem a si se encontra. Que imprudência há em ferir o outro, Senão a mais íntima violência contra si mesmo? Sua confusão, ah, esta névoa espessa Há de feri-lo, disso não duvida, E ainda assim persiste, errante, Pois já sofre, mesmo antes do golpe final. Nada há mais excruciante Do que desejar ardentemente E, ao tocar o objeto do anseio, Descobrir que não era como sonhara Ou pior… suspeitar que fora ele quem o corrompera. Seria o mundo diverso do que supunha, Ou é ele quem, em segredo, sabota o próprio enredo? Recorda-se de seus quereres passados tão seguro, tão nítido E agora soam-lhe caricatos, distantes, quase risíveis. Conhece-se, de fato? Ou apenas decorou a si mesmo como um papel mal ensaiado? Pois o reflexo que o fita É mais turvo, mais indecifrável do que ousara admitir. E que é essa bruma que lhe invade o espírito? Que lhe dissipa os desejos, os prazeres, as intenções, Como se tudo lhe escorresse por entre os dedos Antes mesmo de ser plenamente sentido? De que foge, ao lançar-se de leito em leito, Buscando nos corpos alheios um abrigo que não sustenta? Que vazio é esse que o impele, E por que toda proximidade lhe pesa como exaustão? E então por fim a pergunta que não cessa, Que ecoa mais alta que todas as outras: Por que, tendo tanto ao redor, Permanece ele… irremediavelmente só?

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