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Um garoto que dorme

@Hamlet · desde 2018

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Poema

...

Resta um corpo numa cama, num quarto, resultado de uma guerra sem armas, sem sentido ou, sem um belo sentido. Resta um corpo, afirmo, vil qual lagarto: largado na cama nutrindo escamas, pra ao sair (há saída?) do quarto, ir fugindo... De modo cínico, esquizoafetivo, o homem esquizoide já se levanta. Mentalmente ele canta a melodia que foi soprada no ar durante a noite dura - muito batida de pingos de chuva. O alarido dos pingos dá lugar a errantes passos secos, que todos dão nas praças ruas e becos. Lá vai ele arrastado, levado por um não sei quê, pra quê. Vaga insone, dormindo enquanto a clara tarde vai sumindo... Acorda e já é noite escura, onde vê que a vida, sua vida ácida, já não escorre alvura, fica estática.

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Cantiga

Cantiga errante

Vai caminheiro em teu andar em teu cantar mesmo sem jeito. Vai caminhar que não há jeito que não há leito pra descansar. Vai caminheiro que o amor vai vai bem ligeiro - que o amor vai vai descansar em outro leito.

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Silêncio

Palavras patéticas

Versos versos versos se me atrevo a vos dizer em voz alta, se viram do avesso se perdem pelo ar. Tornam a calar nestas folhas mudas, formam novas métricas que tudo já vale pois que tudo muda. Tudo muda, eu mudo, nossos pensamentos mudam, nossos eus diversos de nós divergem do mundo. (E cá estamos, sós)

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Poema

ESTRELADA

Um homem que dorme, que não sente a chuva a cair, que do mundo foge. Um homem covarde, um garoto ainda, a fugir pra Vênus, pra Marte. Garoto que sonha com outros mundos, e vê apenas estrelas na fronha.

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Ornitorrinco

Tenho um ornitorrinco que faz truques. Desde pequeno ele inventa coisa... Quando era pequenininho Sherlock já dançava bolero e tudo. Como era desengonçado no passo no mover de olhos no abrir o bocão e dizer apenas três coisas: ããããhhh ããh ããããhhh! Levei-o ao circo para que encontrasse outros sujeitos formidáveis como ele, mas o que ali vimos foram sujeitos desprezíveis que não gostam dos bichos... (Exceto quando bem impressos em suas cédulas) A vida não foi fácil pra meu ornitorrinco. Portador de paralisia cerebral infantil e de trypanosoma cruzi, o bruto nem sabia ler e me pedia que tudo traduzisse para o idioma falado em Animalia, de onde vêm os Ornithorhynchus. E todo dia eu tinha que gritar à à  ÃÃHH e nisso perdi muito tempo de ensiná-lo o nosso português. Com seus 4 anos de idade, Sherlock deu uma de viado. (Uma noite acordei com o seu bico de pato me beijando na calada da noite, e aí eu disse "Tu é gay, mano?". Bico não disse um "ÃH") Me pediu que o levasse ao psicólogo pois ele já não sabia se era ELE ou se era ELA... Se era ornitorrinco, pato, ou tatu-bola! Muito loko, fiz um exame toxicológico nele e para minha surpresa eu tinha um ornitorrinco fumador de crack. Essa fase subversiva dos ornitorrincos é foda. Mas enfim passou. Hoje ele rema, dança em boates de prestígio, nada pelas lagoas, fuma cigarro eletrônico e lê em vários idiomas - acho que ele quer ser filósofo. Comemos crustáceos nas longas noites de inverno. No verão são os insetos, os vermes. Ah meu ornitorrincozinho.. E pensar que me falavam "Frita esse baitola pro jantar!" Por fim, estes que foram o nosso jantar rsrs. Carne humana pra um garoto e seu distinto amiguinho. Hoje fomos atrás do homem-urso-porco. E nada.. Mas matamos uns ratos com esquistossomose, equidnas inocentes porque ninguém é de ferro, e tantos outros seres que assim como nós vagam pelo crepúsculo, pelas sombras; eles nos querem usar em rituais de magia negra! Por isso temos que matá-los para avançar com a luta de classes - assim falou o ornitorrinco... (Continuo?)

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Sociedade

INDESLINDÁVEL

Serei só, só eu e o Sol no céu sem fim... Mas sem mim, que me queimei e morri. Serei apenas pó! Como tudo nesta terra. Mas que era que eu era? É o que somos: vultos. Somos sós, mesmo se juntos neste cego nó.

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Sociedade

DESENCONTROS

Vão-se indo (é noite) as pessoas... Se na rua me esbarro nelas? Só as vejo desta janela. Um desencontro que ecoa em meu quarto, no meu peito, embora nem ocorrido. Embora com seus sorrisos falsos, pessoas terão jeito em meu peito, no meu quarto? Quando elas se vão, em vão tento apanhá-las na mão - desfazem-se como barro. E é isto: em busca do perdido perde-se outros que vão-se indo...

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Sanidade

Palavras paradas

O lunático deita-se na cama que esforço não esforçar-se! O lunático enforca-se mas diz ser enforcado pelo lençol parado. O lunático aquele que ninguém vê o que todos acreditam estar estudando pro Enem longe das vãs filosofias... Mas ele viaja pelas estruturas do silêncio. Nota por nota rota por rota o lunático passa horas ligando os pontos "então o nada vezes nada é nada noves fora tudo" Lunáticos falam assim "tudo nada nada tudo" que nem o Ednaldo Pereira, como se soubessem o que são... É a pior poesia. Ah véi, isso não é poesia. Acho que nunca escreverei uma. Tentarei O lunático gira gira estático. Fala sozinho - patético - no escuro com as sombras com as camas dos enfermos da 2° Guerra "Isso é tifo exantemático, amigo? porque esse cheiro de carniça.. Vou chamar o Dr. Hans Chucrutes". O lunático cai na cama várias vezes, vários eus a cair. Quando deita.. é como se ainda não tivesse deitado como se estivesse parado em pé ao lado da cama prestes a partir Para a grama! O lunático está na grama. Senta-se, divide as terras e faz sua caricatura; puxa umas graminhas. Ele queria ser como elas: mesmo nos ventos fortes continuam fincadas ao chão (exceto quando um curioso as têm na mão) Ao redor dizem "Alá o bicho do mato" Taí, bicho do mato bicho do mato tua família toda seu desgraçado! Mas até que não é um nome tão ruim. Fugir pro ermo do campo longe dessa confusão misturado a escuridão e ao seu poder de encanto. Barulhos estranhos Gotas esquecidas de cair Batidas nas portas que nunca abrem Todos tolos e eu todos: a tola vespa a bailar o tolo tatu a gargalhar a tola flor e seu perfume tolo o tolo verme a me espreitar. Todos tolos e eu todos! Bicho do mato como eles, como vós, como até sua mãe rs. _____________ O lunático deita-se na grama. O verde manto da terra lhe cobrirá neste fim de tarde, rasgará um palmo de seu corpo para agasalhar o garoto. O bicho do mato no fim de sua vida quando nele de vida restar pouco, as graminhas ricas, os ventos calmos rasguem só mais uns palmos para cobrir o morto.

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Palavras

A minha boca é um túmulo. Meu coração é um túmulo. Minha mente é tumulto.

Palavras

Dias são jogados fora: horas perdidas. À tarde... "Entra que tá tarde, menino!" Resta a noite, para sonhar os dias.