Resta um corpo numa cama, num quarto,
resultado de uma guerra sem armas,
sem sentido ou, sem um belo sentido.
Resta um corpo, afirmo, vil qual lagarto:
largado na cama nutrindo escamas,
pra ao sair (há saída?) do quarto, ir fugindo...
De modo cínico, esquizoafetivo,
o homem esquizoide já se levanta.
Mentalmente ele canta
a melodia que foi soprada no ar
durante a noite dura
- muito batida de pingos de chuva.
O alarido dos pingos dá lugar
a errantes passos secos,
que todos dão nas praças ruas e becos.
Lá vai ele arrastado,
levado por um não sei quê, pra quê.
Vaga insone, dormindo
enquanto a clara tarde vai sumindo...
Acorda e já é noite escura, onde vê
que a vida, sua vida ácida,
já não escorre alvura, fica estática.
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Vai caminheiro
em teu andar
em teu cantar
mesmo sem jeito.
Vai caminhar
que não há jeito
que não há leito
pra descansar.
Vai caminheiro
que o amor vai
vai bem ligeiro
- que o amor vai
vai descansar
em outro leito.
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Versos versos versos
se me atrevo a vos
dizer em voz alta,
se viram do avesso
se perdem pelo ar.
Tornam a calar
nestas folhas mudas,
formam novas métricas
que tudo já vale
pois que tudo muda.
Tudo muda, eu mudo,
nossos pensamentos
mudam, nossos eus
diversos de nós
divergem do mundo.
(E cá estamos, sós)
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Um homem que dorme,
que não sente a chuva a cair,
que do mundo foge.
Um homem covarde,
um garoto ainda, a fugir
pra Vênus, pra Marte.
Garoto que sonha
com outros mundos, e vê apenas
estrelas na fronha.
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Tenho um ornitorrinco que faz truques.
Desde pequeno ele inventa coisa...
Quando era pequenininho
Sherlock já dançava bolero e tudo.
Como era desengonçado no passo
no mover de olhos
no abrir o bocão e dizer apenas três coisas:
ããããhhh ããh ããããhhh!
Levei-o ao circo para que encontrasse outros sujeitos formidáveis como ele, mas o que ali vimos foram sujeitos desprezíveis que não gostam dos bichos... (Exceto
quando bem impressos em suas cédulas)
A vida não foi fácil pra meu ornitorrinco.
Portador de paralisia cerebral infantil e de trypanosoma cruzi,
o bruto nem sabia ler
e me pedia que tudo traduzisse para o idioma falado em
Animalia, de onde vêm os Ornithorhynchus.
E todo dia eu tinha que gritar
à à  ÃÃHH
e nisso perdi muito tempo
de ensiná-lo o nosso português.
Com seus 4 anos de idade, Sherlock deu uma de viado.
(Uma noite acordei com o seu bico de pato me beijando
na calada da noite, e aí eu disse "Tu é gay, mano?".
Bico não disse um "ÃH")
Me pediu que o levasse ao psicólogo pois ele já não sabia se era ELE ou se era ELA... Se era ornitorrinco, pato, ou tatu-bola!
Muito loko, fiz um exame toxicológico nele e
para minha surpresa
eu tinha um ornitorrinco fumador de crack.
Essa fase subversiva dos ornitorrincos é foda. Mas enfim passou. Hoje ele rema, dança em boates de prestígio, nada pelas lagoas, fuma cigarro eletrônico e lê em vários idiomas
- acho que ele quer ser filósofo.
Comemos crustáceos nas longas noites de inverno. No verão
são os insetos, os vermes. Ah meu ornitorrincozinho.. E pensar que me falavam "Frita esse baitola pro jantar!"
Por fim, estes que foram o nosso jantar rsrs.
Carne humana pra um garoto e seu distinto amiguinho.
Hoje fomos atrás do homem-urso-porco. E nada..
Mas matamos uns ratos com esquistossomose,
equidnas inocentes porque ninguém é de ferro,
e tantos outros seres que assim como nós
vagam pelo crepúsculo, pelas sombras;
eles nos querem usar em rituais de magia negra!
Por isso temos que matá-los
para avançar com a luta de classes
- assim falou o ornitorrinco...
(Continuo?)
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Serei só, só eu e o Sol
no céu sem fim... Mas sem mim,
que me queimei e morri.
Serei apenas pó!
Como tudo nesta terra.
Mas que era que eu era?
É o que somos: vultos.
Somos sós, mesmo se juntos
neste cego nó.
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Vão-se indo (é noite) as pessoas...
Se na rua me esbarro nelas?
Só as vejo desta janela.
Um desencontro que ecoa
em meu quarto, no meu peito,
embora nem ocorrido.
Embora com seus sorrisos
falsos, pessoas terão jeito
em meu peito, no meu quarto?
Quando elas se vão, em vão
tento apanhá-las na mão
- desfazem-se como barro.
E é isto: em busca do perdido
perde-se outros que vão-se indo...
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O lunático
deita-se na cama
que esforço não esforçar-se!
O lunático
enforca-se
mas diz ser enforcado
pelo lençol parado.
O lunático
aquele que ninguém vê
o que todos acreditam estar estudando pro Enem
longe das vãs filosofias...
Mas ele
viaja pelas estruturas do silêncio.
Nota por nota
rota por rota
o lunático passa horas ligando os pontos
"então o nada vezes nada é nada noves fora tudo"
Lunáticos
falam assim "tudo nada nada tudo"
que nem o Ednaldo Pereira,
como se soubessem o que são...
É a pior poesia.
Ah véi, isso não é poesia.
Acho que nunca escreverei uma.
Tentarei
O lunático
gira gira estático.
Fala sozinho - patético -
no escuro com as sombras
com as camas dos enfermos da 2° Guerra
"Isso é tifo exantemático, amigo?
porque esse cheiro de carniça.. Vou chamar
o Dr. Hans Chucrutes".
O lunático
cai na cama várias vezes,
vários eus a cair.
Quando deita.. é como se
ainda não tivesse deitado
como se estivesse parado em pé
ao lado da cama
prestes a partir
Para a grama!
O lunático está na grama.
Senta-se, divide as terras
e faz sua caricatura;
puxa umas graminhas.
Ele queria ser como elas:
mesmo nos ventos fortes
continuam fincadas ao chão
(exceto quando um curioso
as têm na mão)
Ao redor dizem
"Alá o bicho do mato"
Taí, bicho do mato
bicho do mato tua família toda seu desgraçado!
Mas até que não é um nome tão ruim.
Fugir pro ermo do campo
longe dessa confusão
misturado a escuridão
e ao seu poder de encanto.
Barulhos estranhos
Gotas esquecidas de cair
Batidas nas portas que nunca abrem
Todos tolos e eu todos:
a tola vespa a bailar
o tolo tatu a gargalhar
a tola flor e seu perfume tolo
o tolo verme a me espreitar.
Todos tolos e eu todos!
Bicho do mato
como eles, como vós, como até sua mãe rs.
_____________
O lunático
deita-se na grama.
O verde manto da terra
lhe cobrirá neste fim de tarde,
rasgará um palmo de seu corpo
para agasalhar o garoto.
O bicho do mato
no fim de sua vida
quando nele de vida restar pouco,
as graminhas ricas, os ventos calmos
rasguem só mais uns palmos
para cobrir o morto.
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A minha boca é um túmulo.
Meu coração é um túmulo.
Minha mente é tumulto.
Dias são jogados fora: horas perdidas.
À tarde... "Entra que tá tarde, menino!"
Resta a noite, para sonhar os dias.