Tudo à minha volta me vê,
sou cereja do bolo.
Vem me morder.
Que mal é esse que tenho
toda vez que percebo
que não é tudo,
eu, cereja, ser?
Quem dera pudesse você ver,
você me ver,
eu te ter.
Ainda que tudo o que aqui se faça
seja igual demais,
senti que você nunca havia sido
um tanto faz.
Por minha displicência em me entregar,
pude me permitir me deixar,
para te enclausurar.
Quem dera tivesse sentido,
ou que tivesse feito mais.
Não teria me perdido
na dor que me refaz.
Continuar lendo
Queria ter te esquecido.
Te deixado de lado, como uma memória passageira, que veio, ensinou e foi embora.
Mas ainda lembro de você.
Quando a noite aparece, e quando o dia amanhece.
Me perco em pensamentos;
você está adentro.
“Me marque”, eu sussurrava, bem quietinha, sem que você ouvisse.
Quando a noite o entregava ao sono, eu surgia ao seu lado, como uma presença que nunca precisou ser convidada.
Chegava próxima ao seu rosto.
Subia a blusa e via suas cicatrizes.
Lambia-as, passava a língua com calma para não acordá-lo; depois, beijava seu pescoço e o mordia devagar...
Suspirava próxima a você, sentia seu cheiro como quem respirava a própria morte naquele momento. E você era, de fato, a minha.
Mordia sua orelha e, quando você estava prestes a acordar, eu voltava para o canto do quarto.
Todas as noites eram assim.
Eu sou a sua paralisia do sono.
Sentiu saudade de mim?
Continuar lendo
As madrugadas dos sábados são as mais dolorosas, porque é em momentos como estes, deitada, que me encontro chorando.
Tendo a certeza de que você está escapando de dentro do meu coração; você, que antes era o meu revestimento mais profundo.
Tenho a sensação de que você também está indo, de que está seguindo em frente. E, junto desses sentimentos que deixei acumular, sei que sempre irei lembrar de você.
Eu sempre irei.
E isso me dói.
Estará cravado, talvez, no meu passado, nas minhas lembranças.
Mas será um estranho
no meu presente.
Continuar lendo
Eu queimo.
Queimo com tanta raiva.
Eu não sou uma pétala de flor.
Nem sou toda delicada.
Sou o lapso interno de uma mente cheia de lembranças.
Sou a incongruência do significado,
a desconfiguração dos teus sentidos.
Eu te violo
e te faço alívio.
E tu não me trincas nem um pouco.
Eu te causo coágulos,
mastigo tua pele morta.
Te amanso pouco a pouco,
te dou equilíbrio
enquanto despenco
com o teu simples existir.
Continuar lendo
Olhe nos meus olhos.
Diga-me que não me quer mais.
Ou me foda até me fazer esquecer que, um dia,
essa frase saiu da sua boca.
Meus cabelos ondulados grudam em meus dedos quando o vento passeia,
depois se esvaem...
Sou quase efêmera,
só não sou tão breve
porque minhas ondas, um dia, te encontram.
Mesmo que não sejam mais as mesmas.
O impacto delas na tua crosta
é como um lembrete de que ainda posso: ainda te toco.
E me desmancho na tua areia.
E tu vens banhar teus pés,
mas tua vontade
é de se afogar dentro de mim.
Continuar lendo
Ando triste pelos cantos,
mas não estou pesada.
Às vezes, minha mente fica inebriada
na agonia do pensar.
Fico quieta.
Sou autoconsciente,
mas queria fugir daqui
e até mesmo das lembranças
que têm o seu rosto.
Sou fadada a isso até quando?
Nas madrugadas em que não durmo,
perco tempo criando cenários
onde tudo poderia ser diferente.
Mas o tempo não é meu,
nem da gente.
Foi-se o nosso tempo.
Tenho muitas saudades,
mas não consigo.
Olho para trás e vejo mágoas,
resquícios do que poderia ter sido.
E isso me entorpece às vezes,
mas a racionalidade é importante.
Afinal, você deu seu ultimato
com suas ações,
com sua mente.
E eu ainda penso
se está bem por aí,
se está se cuidando direito.
Sou uma boneca de boca costurada,
pois não te digo isso.
Não te digo que ainda te acho importante,
nem espero que brinque comigo.
Continuar lendo
Eu me dava conta de que buscava outra pessoa
no meio do banquete que se fazia para mim.
Notava, e isso sempre acontecia quando me permitia desfrutar das oportunidades.
Mas havia algo além dentro do meu ser.
E ele tinha uma coincidência estranha:
parecia um fantasma muito parecido com você.
Um seguro.
Uma âncora transparente.
A certeza de que, em alguma afirmação,
eu estava novamente tendo aquilo de você.
Mas não faz sentido.
Quem está aqui não é tu.
Mesmo que, contigo, pareça.
Sou eu novamente te agarrando?
Sou eu impedindo que tu vás embora
enquanto me desvencilho
daquilo que está comigo?
Sou eu quem, por algum motivo,
ainda tento te alcançar
através das pegadas na neve,
enquanto o meu próprio nevoeiro
tenta apagá-las
e o meu sol insiste em derretê-las?
Será que ando em círculos
e, boa parte das vezes,
volto ao mesmo lugar
onde você me deixou para sofrer?
Talvez eu ainda esteja procurando você
em tudo aquilo que se parece contigo.
Continuar lendo
Sinto saudade de ficar nua.
De querer me doar, me entregar,
em toda a minha nudez.
Ser admirada e adorada.
Gostaria de dançar nua,
em uma noite ouvindo jazz
ou alguma melodia sensual ao fundo.
Eu me envolveria comigo mesma,
me observaria como quem se vê plena e sedutora.
Rebolaria no ritmo da música,
faria um strip tease, soltaria os cabelos,
tocaria meu corpo com delicadeza.
Dizendo a mim mesma aquilo que sempre ecoou na minha cabeça,
um eco vazio de escassez que perdura:
“Preciso tanto... ser tocada.”
Continuar lendo