Anna Gabrielly @Gabrielly_Gomes

Inverno

Há vazios que aprendem a respirar. Alguns passam uma vida inteira fingindo que o peito não ecoa; outros descobrem cedo demais que qualquer centelha parece incêndio quando se nasceu no frio. Basta um gesto que não se demora, uma voz que pousa por um instante, um olhar que não desvia. E, de repente, ergue-se uma casa inteira sobre um único tijolo. Não é amor. É a memória daquilo que nunca teve nome. Há quem confunda migalhas com abrigo porque jamais conheceu uma mesa posta. Há quem transforme presença em destino porque cresceu conversando com ausências. Então permanece. Mesmo quando o silêncio já voltou a ocupar os cômodos. Mesmo quando a porta nunca esteve aberta. Porque quem atravessa a infância carregando inverno aprende a chamar qualquer raio de sol de lar.

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