De: Gabrielly
Para:
Essa é a terceira vez que começo esta carta.
Na primeira, não passei da primeira linha.
Na segunda, fiquei olhando para o relógio.
Quatro minutos atrasado.
Fiquei pensando se quatro minutos ainda contam como atraso quando ninguém está esperando.
Hoje pensei em você.
Mas isso não é novidade.
O problema é que algumas coisas começaram a fazer isso também.
Uma música qualquer.
Uma rua.
Uma palavra.
Até o silêncio, às vezes.
Achei melhor não comentar.
Tem coisas que ficam mais bonitas quando ninguém aponta para elas.
Enfim.
Eu tinha alguma coisa para te dizer.
Só não lembro se era importante.
Talvez seja melhor assim.
Afinal, você nunca saberia que esta carta era para você.
Se eu não tivesse colocado seu nome aqui.
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Amanhã acorda antes de mim.
Eu apenas o alcanço.
Há dias em que o corpo pesa.
Outros,
é o nome.
Aprendi que o cansaço não mora nos músculos.
Ele mora naquilo que ainda insiste em recomeçar.
As manhãs chegam com o mesmo rosto.
As noites devolvem o mesmo silêncio.
E, entre uma e outra,
gasto o pouco que resta tentando vencer uma batalha
que sempre desperta primeiro.
Talvez o pior da exaustão
não seja perder a força.
Seja perceber
que até o descanso
acordou cansado.
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Há noites
em que a lua
esquece o céu
e aprende
a acontecer
por dentro.
Então,
alguma coisa
altera a inclinação
das águas.
Os rios
desaprendem
a própria margem.
As pedras
recordam
o movimento.
E o silêncio,
esse animal antigo,
troca de pele.
Nunca soube
se era o mar
subindo até a lua,
ou a lua
desabando
em mar.
Talvez nenhum dos dois.
Talvez existam
forças
que nunca foram feitas
para tocar,
apenas
para mudar
o peso
umas das outras.
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Talvez eu devesse fechar a janela. Não por causa do vento. O vento nunca foi o problema. Acho que é a lua. Ou talvez ela também não seja. É estranho culpar uma coisa que está tão longe. Mas, sempre que ela aparece, alguma coisa dentro de mim muda de lugar, e eu nunca sei dizer o quê. Talvez eu devesse dormir. Ou escrever. Dizem que escrever organiza, mas toda vez que tento colocar uma palavra no papel, outra chega antes, empurra a primeira, e quando percebo já não estou escrevendo sobre a lua, nem sobre o vento, nem sobre a janela. Estou tentando lembrar por que algumas pessoas têm o estranho hábito de permanecer mesmo quando vão embora. Não, isso também não era o que eu queria dizer. Eu queria falar da água. Ou das marés. Porque nenhuma delas toca a lua, e ainda assim obedecem. Isso me incomoda. Ou me consola. Nunca sei a diferença. Talvez exista alguma coisa que continue nos puxando mesmo depois do fim. Talvez seja por isso que certos silêncios pareçam cheios demais. Ou talvez eu só devesse ter fechado a janela.
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Há vazios que aprendem a respirar.
Alguns passam uma vida inteira fingindo que o peito não ecoa; outros descobrem cedo demais que qualquer centelha parece incêndio quando se nasceu no frio.
Basta um gesto que não se demora, uma voz que pousa por um instante, um olhar que não desvia. E, de repente, ergue-se uma casa inteira sobre um único tijolo.
Não é amor.
É a memória daquilo que nunca teve nome.
Há quem confunda migalhas com abrigo porque jamais conheceu uma mesa posta. Há quem transforme presença em destino porque cresceu conversando com ausências.
Então permanece.
Mesmo quando o silêncio já voltou a ocupar os cômodos.
Mesmo quando a porta nunca esteve aberta.
Porque quem atravessa a infância carregando inverno aprende a chamar qualquer raio de sol de lar.
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Os mapas conhecem distâncias.
Calculam rotas.
Nomeiam cidades.
Contornam montanhas.
Os atlas colecionam o mundo como se ele coubesse em papel.
Ainda assim,
nenhum deles prevê o desvio que muda tudo.
Talvez existam lugares
que jamais aceitem
ser desenhados.
Sempre souberam que existem territórios inalcançáveis a qualquer coordenada.
E talvez seja por isso
que os mapas terminem antes de quem os atravessa.
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Dizem que o amor chega sem bater, mas talvez ele apenas erre de endereço. Eu aprendi a reconhecer casais pelo jeito como caminham, pelo silêncio entre duas mãos dadas, pela facilidade com que alguém encontra um lugar no ombro do outro.
Eu coleciono essas pequenas cenas como quem guarda ingressos de um filme ao qual nunca foi.
Há dias em que culpo a porta. Em outros, descubro que passei a desconfiar da casa inteira.
Então corto afetos antes que aprendam meu nome, reorganizo as estantes, mudo as flores de lugar, observo o céu, invento distrações.
A esperança tem esse costume inconveniente de permanecer onde todo o resto já desistiu.
Talvez um dia alguém atravesse a distância sem pedir licença.
Talvez eu descubra que o amor nunca esteve atrasado; apenas caminhava na velocidade das coisas que pretendem durar.
Talvez eu esteja confundindo demora com ausência.
E, se for isso, que o tempo me encontre antes que eu aprenda a desistir.
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Há pessoas que chegam ao mundo com a estranha vocação de compreender demais.
Não porque lhes ensinaram.
Mas porque certas manhãs não concedem o direito de permanecer criança.
É curioso.
Há quem atravesse os anos sem jamais encontrar a própria profundidade.
E há quem a encontre antes mesmo de aprender a nomear o que sente.
Talvez seja por isso que alguns olhares nunca pertençam inteiramente à juventude.
Conservam a delicadeza, mas já compreendem o peso das coisas.
Há uma serenidade que não pede explicações.
Há presenças que o tempo apenas revela.
E, ainda assim,
continuam claros.
Como se a vida, apesar de tudo, não lhes tivesse roubado a capacidade de refletir a luz.
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Passei tanto tempo me olhando pelos olhos dos outros que, quando fiquei sozinha diante do espelho, não reconheci ninguém.
As flores nunca pedem licença
para nascer.
Talvez eu também
não devesse pedir.